Reescandalizar Baudelaire
23/10/2003
Dizer 'eu' é quase sempre um deslize. Brinco muito com um 'eu' que de mim tem muito pouco, a não ser na universalização da minha banalidade. Embora eu não tenha a menor idéia de quem seja 'eu'. Como todos os seres comuns que atravessam as manhãs deslumbrados com o alarido das ruas, queria submeter-me a um desafio que me marcasse com fogo. Sem incêndio nem cigarro. Decidi 'reescandalizar' Baudelaire, talvez o poeta mais traduzido no Brasil. Agora que minha tradução de 84 poemas de 'As flores do mal' (Sulina) está nas livrarias, posso sonhar que fiz algo. Não digo que realizei uma façanha. Confesso que me dei um pouco mais de sentido.

Quando vi 'Flores do mal, o amor segundo Charles Baudelaire' pronto, fiquei emocionado. Deve ser a velhice. Nunca tinha sentido isso antes diante de um livro. Tive vontade de chorar sobre o exemplar belíssimo da edição bilíngüe, cuja capa é uma obra-prima do gênero. Na verdade, são 84 poemas sobre amor e morte. Traduzi os 166 poemas da edição da Pléiade. Joguei fora metade. Quase eliminei o satanismo de Baudelaire que sempre encantou tantos velhos adolescentes. Resgatei o poeta do cotidiano, das passantes, das serpentes que dançam, do sexo, das drogas e da paixão.

Vivi quase dois anos possuído pelo delírio de uma poesia visceral e sem tempo. Amo a literatura. Sinto uma alegria sem medida diante da criação de um gênio. Algo que me faz perder a sobriedade e o pudor. Baudelaire me deslumbra. A sua imensa poesia iluminou a minha pequenez como um turbilhão. Andei perdido em palavras, sons e ritmos como um fantasma em dias e noites repletos de magia. Baudelaire foi processado, maltratado e perseguido pelo escândalo que causou com as suas flores do mal. O tempo domesticou as ótimas traduções existentes. Achei de bom tom retomar a heresia.

Poesia é coisa para se ler no ônibus, no banheiro, antes do suicídio, na hora do casamento, dois minutos antes do divórcio, na porta do hospital. Posso brincar com meu 'eu' irônico. Consegui resolver um dos mais sérios problemas da sociedade de massa e dos tempos da indústria cultural. Mereço mais uma estátua em shopping center pela minha realização. Inventei, outra vez, o presente ideal a ser dado por quem gosta de cultura em todas as festas, a começar pelo Natal.
juremir@pucrs.br



(Correio do Povo - Porto Alegre)
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