Vozes da Legalidade
05/06/2011
No início dos anos 70, como repórter da sucursal do jornal O Estado de S.Paulo, estive com o general Cordeiro de Farias para uma entrevista que terminou apenas numa conversa. Como era tudo em "off", o general me disse que os militares tinham em Leonel Brizola (vivendo no exílio uruguaio) um inimigo da Revolução de 64. Se Brizola voltasse ao Brasil, ele levantaria o país com um microfone na mão e um canal de rádio divulgando o seu discurso. É a partir daí que me reporto ao mais recente livro do colega Juremir Machado da Silva "Vozes da Legalidade - Política e Imaginário na Era do Rádio". Juremir uniu dois fatos históricos ocorridos na última semana de agosto de 1961 - o Movimento da Legalidade e o poder do rádio - e produziu uma impecável reportagem daqueles dias turbulentos, incertos e plenos de demonstrações de patriotismo, coragem, sístoles e diástoles do caráter de muitos políticos aqui no Sul e em Brasília. A narrativa é baseada em documentos da época, tendo os jornais de Porto Alegre como uma segura fonte de pesquisa, mas o que enriquece o trabalho de Juremir são os depoimentos de pessoas que estão vivas e que certamente estarão presentes no dia dos autógrafos pelo lançamento do "Vozes da Legalidade". Um atrativo extra do livro de Juremir é a boa seleção que ele fez das narrativas das testemunhas que estiveram no coração da Legalidade, na verdade o porão do Palácio Piratini. São minúcias dos dias que despertaram nos gaúchos uma vontade de brigar pela legalidade, no caso, a posse de Jango pela renúncia de Jânio Quadros. Vamos resistir?, diziam os heróis da ocasião. E o III Exército como se comportará? As ordens de Brasília eram bem claras: prender quem apoiasse Jango, a começar por Leonel Brizola, o governador. Então, a preocupação era com o general Machado Lopes, comandante supremo da força terrestre nos três estados sulinos - RS, SC e PR. Dissuadi-lo sem fazê-lo aderir, um desafio de inteligência que, segundo Juremir, foi resolvido pelo jornalista Flávio Tavares. Flávio, sempre com bom humor, telefonou para o general imitando a voz do arcebispo dom Vicente Scherer e vice-versa, marcando um encontro de ambos em nome da conciliação. E começava a dar certo o movimento de Leonel Brizola. Só Flávio ainda está vivo do trio histórico. No nosso país não corre sangue nos confrontos políticos (pelo menos nos últimos) porque o humor é mais forte. E se dom Vicente e Machado Lopes tivessem descoberto a brincadeira de Flávio? Juremir conta tudo.

O livro

São 223 páginas que o leitor não terá dificuldade alguma em se situar na Praça da Matriz, nos porões do Piratini ou nas reuniões militares que determinavam a tomada de Porto Alegre e até o bombardeio do Palácio do governo. Quem tem mais de 60 anos ficará emocionado pelas reminiscências levantadas pela pesquisa de Juremir, porque terá a oportunidade de confirmar aqueles episódios. Juremir gosta de remexer documentos e o seu "Vozes da Legalidade" tem um trabalho de um ano com gravações, pesquisas em jornais e conversas longas com algumas testemunhas que até um 38 Taurus exibiam na cintura, em agosto de 1961, prontas para o sacrifício pela "Legalidade".

O rompimento

Brizola só foi se reconciliar com Jango um pouco antes de o ex-presidente morrer no exílio. Juremir diz que o tempo de perdão entre os dois, até a morte de Jango, durou somente dois meses. A viúva, Maria Tereza Goulart, garante: "Brizola e Jango nunca se reconciliaram".

Nossas revoluções

Das três passagens históricas mais importantes do RS, Juremir não tem dúvidas em relacionar Getúlio Vargas, Leonel Brizola e Bento Gonçalves, nesta ordem, pela importância de cada um como lideres revolucionários. Ele não trata desse assunto no seu livro, mas já escreveu sobre os três. Enquanto Getúlio e Brizola projetaram o RS como uma unidade federativa a ser respeitada e integrante dos nossos livros de História, Bento Gonçalves limitou-se aos nossos valores regionais até hoje enaltecidos pela Semana Farroupilha.

Alguém duvida?

Se alguém chegar até uma escola da Amazônia, é bem provável que os alunos saibam mais sobre o Rio Grande do Sul pelos atos de Getúlio Vargas e Leonel Brizola do que pelas façanhas de Bento Gonçalves. Juremir preferiria uma Semana da Legalidade do que uma Semana Farroupilha, se fosse para festejar nossos sentimentos cívicos. Leia o livro.

Rogério Mendelski | rogerio@radioguaiba.com.br
Link: http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=248&Caderno=0&Editoria=111&Noticia=301408

Voltar | Versão em PDF | Indicar

 

Os dados pessoais fornecidos pelos usuários do site www.editorasulina.com.br são assegurados pela seguinte Política de Privacidade