Hackers de direita
09/08/2011
Depois tem quem diga que não existe direita no Brasil. Existe e ataca. O grande Edgar Morin, aos 90 anos de idade, veio palestrar em Porto Alegre. Aproveitou para lançar seu último livro no Brasil, penúltimo na França, "A Minha Esquerda" (Sulina). A notícia do lançamento provocou ranger de dentes. Hackers invadiram o site da editora Sulina e detonaram todas as informações sobre a obra. Os técnicos não têm dúvida: o alvo da ação foi o livro de Morin. No final de semana, quem entrava no site da Sulina deparava-se com esta menção: hackedby j4gg0. O ódio sempre encontra novas formas de expressão. Mobiliza competências extraordinárias. Produz resultados devastadores. Pensador da complexidade, Morin não merece algo tão simplista.

O que diz Edgar Morin em "A Minha Esquerda" para despertar tanto ódio? Diz que uma sociedade democrática precisa de uma sensibilidade de esquerda. Afirma que esquerda e direita continuam fazendo sentido e opondo-se a partir de posicionamentos em torno da solidariedade e do egoísmo. Propõe um retorno às fontes da esquerda, revolta e aspiração: "Revolta contra tudo o que degrada o homem pelo homem, contra as escravizações, os desprezos, as humilhações. Aspiração não pelo melhor dos mundos, mas por um mundo melhor. Essa aspiração, que no decorrer da história humana jamais cessou de nascer e renascer, nascerá outra vez. A contribuição de um pensamento político regenerado, porém, lhe será necessária. A vontade e a esperança renascerão a partir daí". É isso.

A regeneração não virá exclusivamente da mão livre do mercado nem da força criadora da ganância, mas de um equilíbrio entre iniciativa privada e intervenção estatal. Por alguns anos, no Brasil, vigorou o discurso triunfante do neoliberalismo. Falar em esquerda era palavrão. A crise de 2008 nos Estados Unidos sepultou essa ilusão da direita. Alguns, contudo, não querem aceitar esse retorno da esperança numa perspectiva republicana e solidária. No ataque dos hackers ao livro de Morin há uma parte de ódio à Sulina por ser a principal editora do velho sábio francês no Brasil. Como sempre digo, citando Ricardo Piglia, os paranoicos também têm inimigos, assim como os hipocondríacos também adoecem. Parte desse ódio é para mim como um dos principais tradutores de Morin e como seu discípulo.

Esses hackers, muito competentes em tecnologia, são lentos em marketing. Jogam para cima o que pretendem derrubar. Salvo se o ataque foi feito por admiradores de Edgar Morin dispostos a usar um recurso radical de divulgação. Não deixa de ser um avanço. Até agora, ao Sul do Equador, hackers não se interessavam por pensadores. O único que conheciam era o Gabriel. Entramos na era digital do direitismo. O pior sempre chega rapidamente. Fica um recado de Morin para estes tempos de crise: "Na crise planetária da humanidade, quando surgem as forças regressivas ou desintegradoras, surgem também as forças geradoras e criadoras". Não há hacker capaz de danificar o cérebro em plena forma do nonagenário Edgar Morin.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
Link: http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=313&Caderno=0&Editoria=120&Noticia=325059

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