Internet, e daí?
20/08/2003
Intelectual existe para criticar. Se há tese, o intelectual deve ser contra. Criticar significa pôr em crise, desconstruir, chutar o balde. O francês Dominique Wolton não nega a sua função e vai à luta na contramão das 'publicidades' que prometem o melhor dos mundos pela tecnologia. Expõe-se às simplificações. Ora acusam-no de ser contra a técnica e de ser um dinossauro, ora atacam-no por ser 'integrado' e pouco crítico da mídia. Em 'Internet, e Depois?' (Sulina, 2003, tradução de Isabel Crossetti), Wolton põe o dedo na ferida e questiona o sonho da democracia virtual e a propaganda da Internet como remédio para todos os males da nossa época. Tem argumentos reais.

Dominique Wolton é reincidente. Em 'Elogio do Grande Público', tomou o contrapé dos discursos politicamente corretos de então e sustentou que as televisões abertas são mais importantes e úteis para as sociedades que os canais a cabo. As primeiras, segundo ele, servem de cimento social e ajudam a consolidar as democracias pela união de todos num mesmo espaço virtual de identidade, de informação e de partilha de valores, mesmo com todos os defeitos da televisão comercial, que não escapam ao olhar atento do crítico. Já as televisões a cabo, no entender dele, produzem guetos, repetem conteúdos comerciais ou descambam para o hermetismo elitista muito satisfeito consigo mesmo. Wolton também já defendeu o valor social das novelas da Globo (eu defendo o valor sexual).

Agora, em 'Internet, e Depois?', qualquer sinal de rabugice põe a Internet no seu devido lugar: uma tecnologia dependente do uso que dela fazem e farão os homens. Nenhuma técnica é neutra. Tampouco é autônoma. Um mundo melhor depende de recursos técnicos e de vontade política e humana de aproveitá-lo para o melhor. Tecnologia não produz conteúdo nem criatividade. Isso só a velha máquina humana pode fazer. Wolton não dá mole e incomoda muita gente. 'Internet, e Depois?' explora todas as perguntas que não querem calar, mas são deletadas pelos 'tecno-rosas'. O autor é um perfeito serial killer da sociologia: bate e não pede desculpas. É argumento contra argumento, tese contra tese, dado contra dado, realidade contra realidade. Parafraseando o maior filósofo brasileiro de todos os tempos, o velho guerreiro Chacrinha, intelectual que não critica se trumbica.



Juremir Machado da Silva para o CORREIO DO POVO / Porto Alegre / RS
(juremir@pucrs.br)

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