Chuva Dúbia

Chuva Dúbia

 

Mas vou me molhar!

   A chuva sucinta medos, não deveria. Parte constitutiva da natureza, faz parte de um ciclo renovatório e brinda o olfato com reminiscências diversas, o aroma da terra sendo tocada por ela, às plantas que se embaraçam em sua liquidez e assim em conjunto, cada gota é um universo de sentidos, um brinde ao observador vigia.

  Um coletivo mágico, como pensar que água cai do céu?  Como vislumbrar esta lógica? Água está na terra, mas vem cadente do firmamento!

  Temos medo da chuva, de seus significados, molhar-se, expor-se, mesmo que por imberbe instante, sim ela é jovem, pois traz renovação. Mas não entendemos ainda hodiernamente as curvas da natureza, diante está o malogro climático que nós mesmos criamos com mão pesada. Mas o desconhecido toma formas que cintilam na mente, ecoam por entre vozes que falam muito, mas observam pouco. É nosso ambiente tátil.

   Temos medo da chuva? Aqui no sul do sul ela se reveste com outras máscaras, como não lembrar de 2024 e o briefing da força que a chuva demonstrou aos gaúchos? Mas o medo pode cercear o timão da nau chamada vida? São muitas perguntas, que traduzir justamente o incômodo que é não estar em irmandade com a natureza não sacia a dúvida. Vil civilização está nossa que em favor de confortos aéreos se esquece da tenaz força da terra, do contorcionismo destrutivo do fogo, e a voz altíssima dos ventos. 

   Deixo me molhar, na esperança que uma gota cadente venha esterilizar minha dor, a dor de pertencer e estar contido nesta matemática torpe de uma humanidade que aprendeu a subtrair na prática, mas somar só na teoria, caminhar junto a uma raça que de si e por si pouco sabe, ou finge se perder nos labirintos de sua própria densidade arrogante, mais uma gota e movo pés para uma rua, que já foi campo, que mais ainda foi floresta, em busca deste primitivo, a senda se torna coadjuvante e o sentir protagonista.

   Encharcado agora de mim, desnudo de roupas, mesmo que com elas, porque molhadas pouco significam, assim tenho plena razão em reclamar um lugar à chuva.

   Que venha como dilúvio e lave a presunção dos bêbados pelo poder, que varra da superfície dos pensamentos as pré-concepções, enxágue a dúvida de ser humano.

   A Chuva vem e tem som, retumba na terra e me traduz com palavras fortes o meu lugar neste eterno vai e vem de sentidos e estações.

  É hora de entrar no meu universo chamado casa e me secar com a dubiedade da cegueira humana.

 


Autor: Alceu Amaral


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