Domingo útil
Um domingo que se preste tem uma fórmula, algo para caracterizá-lo, onde todos saibam ao abrir a janela que é domingo indubitavelmente.
Primeiro, a estranheza quase tátil do silêncio, o sono sem vigia, o acordar liberto, o olhar pitoresco para nossos ambientes mais corriqueiros, assim como um estrangeiro em sua própria pátria, hábitos exclusivos de fim de semana, o chimarrão a frente da casa é um bom exemplo, e por fim, um fato nonsence.
No sorver do chimarrão e a leitura de meu livro da vez, meu vizinho que quase não se enquadra nesta adjetivação desce a rua com passos procrastinadores, parecendo ser impulsionado pelos ventos de novembro, mas algo me rapta da leitura.
Em sua mão um celular. Que equilíbrio! Me nutre o pensamento de imediato. Como consegue andar sem desviar o olhar daquele objeto tão polêmico?
A uma distância irmanada do rosto do aparelho não se desvencilha, assim seguindo seu andar lento, mas distante de um caminhar bêbado, que seria o meu naquela circunstância.
Eis o fato para alimentar meu domingo matutino. Seria ele viciado? Me vem a cabeça uma patologia que nem o nome sei ao certo, uma estatística destas que lemos em matérias especiais em periódicos famosos sob o uso de telas.
Seria a solidão se metamorfoseando naquela cena. Meu vizinho não é muito social nem seu nome sei! Na cassa verde ele mora, filho da Dona Jerusa e só.
Do que vive, como trabalha, do que se alimenta? Como diria Sergio Chapelin. Não que meu instinto alcoviteiro precise ser alimentado, mas há uma naturalidade em socializar entre os próximos, algo orgânico e suburbano, diga-se.
Antes de pensar no que é tão importante que não mereça o olhar contemplativo na manhã que se engrandece, penso no quão refém estamos de ferramentas e o quão distantes da vida primitiva rumamos, aquela de nos difere do artificial ou do banal. Que preço a distração e o entretenimento nos faz seu credor? A discussão não tem limiar, pois reside no futuro, assim como as novas gerações são uma incógnita, mesmo que desde já criticadas pelo mesmo motivo que originou minha admiração, telas, falta de tato com a vida corriqueira ou a sabedoria de se encaixar na engrenagem existencial. É no passado que mora a resposta disfarçada de vidência.
No passado ferramentas e utensílios encandeceram discussões em brasa, e o tempo tomou para si a responsabilidade de arrefecer as celeumas. O homem é sua própria medida e sua mão mais útil que o utensílio. Será que meu vizinho pensa assim?
Seria culpado a bala ou o atirador? A frase ferina na rede social ou quem a escreveu?
O carro que atropelou ou quem do acelerador fez brinquedo? A resposta a consciência não pode se diluir entre as brumas das novidades. Ferramentas requerem um usuário. Assim, o óbvio se impõe.
Então, o tempo este que passa vagaroso entre esta rua quase deserta e meu pensar frutífero, ele que me deu oportunidade de moldar pensamentos sobre o proceder das ferramentas e de seus usuários, nossas responsabilidades quanto ao seu uso, ou desuso, ele forja o agora, e eu fico envolto em pensamentos, afinal é domingo, dia de usar outros verbos, pensar, refletir, mas não anular.
O mesmo que me avisa que meu vizinho está de volta. Caminhando e teclando sem lenço ou documento, afinal é domingo.
Autor: Alceu Amaral

