O Livro e o professor.
Vindo de universos distintos os livros, amalgamados de palavras colheradas dentro de histórias, conceitos ideias ou construções que buscam o belo, distante -alguns dizem que até de si- está o professor, ser zoológico que encarcerado é atração pitoresca nos jardins da ignorância, cabisbaixo e condicionado, o ser por sua imagem ensina o que consegue passar entre as grades grossas feitas de um aço não raro, mas que vem sendo usado em demasia, o desdém.
Quem se importa com as peripécias que de dentro da jaula ele produz? Mas todos sabem, todos conhecem seu potencial, talvez esteja aí a justificativa do cárcere. Neste mundo inquilino do absurdo, as pessoas passam por eles, rotos humanoides de cabelos grisalhos e vítimas de ventanias, espumando verdades fora de moda pela boca onde os dentes lhe mordem rotineiramente, torturados por correntes invisíveis sentidas na amplitude do caminhar do povo.
Diante de si uma maravilha da criação, a concepção divina que o homem concebeu de si para si, o livro. Objeto que dizem ser inventado, mas cá para nós, foi presente de algum deus cujo nome deve ter se perdido nas chamas de Alexandria, uma dádiva ameaçada.
Como escrever? Como ler? Se a visão turva-se e declina rumo ao apagamento, a miopia é incisão fatal da neuralgia social. Os livros deveriam ser o pavimento do andar do professor, mas é vento que se afasta em dia tórrido, hiato de terra movediça que lhe submerge lentamente.
Ele insiste, quer imprimir no papel suas pictóricas lembranças a fim de desaforar o esquecimento, desafiar o esvaecimento de uma vida que outrora salpicada de branco do giz e hoje vacilante entre cabos, conexões e internetês, a folha se agiganta e ganha tônus hercúleo e ri da vontade que cambaleia diante de montanhas de provas, relatórios, cadernos e o mais novo adversário, as coloridas planilhas.
De dentro da tormenta seu corpo esquálido testemunha os ventos da ignorância varrerem o solo fértil de mentes que poderiam frutificar, ela desfaz o que de mais humano temos, o raciocínio livre, viciados estes admiradores da pitoresca e circense pedagogia não dialogam na mesma língua, eles no virtual são o vírus do vírus e estes antigos detentores do conhecimento se esvaem em incertezas.
Tudo ele quer registrar, mas a mão em uma espécie de delirium tremens de boca seca,o obriga a travar a vontade e depois dorme com o futuro livro no estático colo, e o sonho desperto vira pesadelo onírico.
Há também outra fauna, os que querem somente ler, decifrar palavras e deste código vasculhar o pensamento, sorvendo o sumo de outras imaginações. Porém, vencido não ultrapassa o Cabo Das Tormentas, hoje apelidado de leitura. Suas íris exauridas vagueiam por outras distrações mais fugazes e o livro recebe em troca a poeira.
Mas nem tudo é jaz no Hades, há quem resista, e de forma heroica imprime sua rebeldia elegante e solitária ao abrir um livro enquanto seus alunos realizam provas, preferem a companhia letrada a outras artes, migram para mil universos enquanto esperam nas estéreis salas de espera, não esquecem das páginas ao viajarem, ou tomam o sonífero das narrativas antes de se entregar ao descanso noturno. E assim, o livro resiste à degradação do ignorar.
Autor: Alceu Amaral

