O livro na lavanderia

O livro na lavanderia

   Tudo muito moderno, conectado e interativo, telas, mas era somente uma lavagem de roupa de emergência na capital do sul, onde não sou tão estrangeiro, porém minha identidade a renega como natividade.

    Recepção digital, câmeras no lugar de uma. Boa tarde, e o sorriso cordial do porto- alegrense, aplicativos, cadastro… e confesso ter um pouco de receio guardado no fundo do pote de minhas incapacidades, talvez pelo avanço rápido dessas tecnologias, inteligências artificiais e leitura facial. Tudo questiono como quem come um prato desconhecido ou às cegas, também em meus pensamentos mais calcados na terra encontrem caminhos filosóficos para explicar e questionar tamanhas ferramentas. Por que não uma bela moça que more na Restinga atendendo? Ou um comunicativo estudante roqueiro, ajudando na pesagem e lavagem das minhas vestes cobertas de lembranças e suor?

    Celulares são onipresentes na sala vazia e fria, é um frio em duplo sentido, há lugar para carregar o pequeno deus que tem seu altar em nossas mãos, ele reina na abertura da lavanderia, o pagamento pode ser por ele e assim o frio aumentava. Até que…

     Lembrei de deixar um livro naquele ambiente de espera ornado com anônimos sofás, sim, um livro meu ali para quem quisesse apreciá-lo ou dar o destino mais aleatório possível. Sempre acalentei a ideia de deixar livros em praças, bancos de parada de ônibus, era uma ideia que merecia reflexão.

    O apego as minhas palavras ali no papel, esquadrinhadas como tatuagem, no universo branco do papel, aqueles sentimentos que moldei até cansar a visão, soltos ao tempero dos ventos? Verbos, adjetivos, capítulos, personagens que falam mais sobre mim que minha presença, assim ao léu, randômico à vontade anônima? Descartadas se sentiriam? Que traição! Como um vento revolto, torno baldio esta ideia e sem muita certeza faço um autógrafo e escrevo, “ É seu, boa leitura”.

      Como árvore de reflorestamento plantado ele estava ali, eu vigiando as roupas e lendo a paixão segundo Clarice. No virar de folha, não estava mais só. 

      A menina e suas sacolas chegaram como mandatária, dona e segura. Boa tarde. Boa tarde. E só.

    As generosas sacolas tiveram o vácuo como recompensa e suas vestes rapidamente foram para a parede de máquinas de lavar. Como um expirar e respirar, chegou ao totem com seu celular e não deixando a AI interagir, claro pulava as etapas, pois o serviço lhe era corriqueiro, como bom detetive do normal deduzi, tudo aqui era novo só para mim.

     Então, uma dor. Ela senta quase sobre o livro, que convidativo estava no sofá inocente, que dor para um autor, seus olhos apaixonados acorrentados estavam no celular. E pior, eu vi que ela avistou meu livro e insensível o relegou quase ao chão.

     Que sentimento me inunda. Pego de volta, interpelando-a com cara de reprovação, estilo pai bravo? Melhor, deixo, pois histórias criadas já cortaram o cordão umbilical? A dúvida é um tormento para quem acolhe as palavras, que soltas são órfãs e as conduz ao lar narrativo. 

      É o mal do século. Quem lê hoje em dia? Olhando rápido para a garota de fone de ouvido.

      Minhas roupas ficam prontas, a mochila me serve e meu livro servirá para meu desapego egoísta das palavras?

 


Autor: Alceu Amaral


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