Os ventos daqui movem moinhos.
Ao norte o pensamento voava, embebido em ícones, histórias fantásticas, berço de liberdade total e heróis, até os animais lá gorjeiam com mais brio, e o tempo, ele sempre se encarrega de enferrujar os impérios, e a história testemunha tudo do alto de sua risada irônica e sábia.
Eles têm na águia um símbolo, e nestas asas que a recordação toma ares de ingenuidade, pensar que tudo de lá era melhor, e agora ver com clareza, é tudo que se quer da vida adulta. A ingenuidade de desejar ser o Super Homem e suas cores de liberdade travestidas de ditadura, claro, liberdade para os seus e o resto do mundo, a dor. Incapacidade a minha de ver que no cinema a bandeira vermelha, azul e branca sempre encerrava os filmes de forma impávida e onipresente, com suas estrelas e listras a oprimir o vilão, que poderia ser eu, você ou um morador da parte de baixo do mundo. Não via assim, que bom meus óculos novos!
Venha para o sabor, venha para o mundo de CÂNCER, e lá se vão os vícios que, vendidos como liberdade, moldam um mundo, propaganda que engana, eu fui engando.
Me vestia e travestia de uma febre que não era minha, cores distintas do meu tropical local. Vermelho e preto era o boné com um boi, e o basquete tem as cores do norte, e do norte novamente. E os nomes dos atletas se sobressaiam, aos deuses folclóricos e heróis deste lado de cá do Equador.
Na música, esta aprendi algo de valor. Sua língua hoje é familiar e não me ofenda na língua deles, pois traduzi tantas vozes, de tantos rock’s, que calejado não me engano neste tempo rei e neste contratempo de palavras que não são minhas, defesas e protestos que ainda hoje os ouvidos se deleitam, mais por costume que por adoração cega. Relevar é preciso, música é cultura, uma língua universal, admito.
América que não ameniza suas catástrofes ficcionais em nome de audiência e olhares hipnotizados, seus carros explodindo, prédios indo ao chão, megaeventos interplanetários, travestidos de arrogância, como se um extraterrestre fosse imune ao sonho americano. Divago, quem sabe ele, o ET, seria escravizado em alguma rede de fast food. Seria depois de alguns anos, banal ver um ser verde com olhos gigantes usando uniforme e fritando hambúrguer, ou em situação de invisibilidade em algum grande centro deles.
A balança onde colocarei minhas memórias sobre um lugar utópico não será esta, pouparei os erros de meus irmãos deste continente chamado Brasil e elevarei meu olhar para este céu azul, que nutriu tantas poesias escritas em papéis tão nobres quanto qualquer outro nesses cantos do mundo. E troco a pessoa desta escrita e te chamo leitor, para juntos enaltecermos não um pano de fundo para ditador pseudo patriota, mas elevar nossa brasilidade negra, branca, indígena, gingada, alegre, múltipla e que movem moinhos.
Autor: Alceu Amaral

