Adulto criança.
O chavão da popular e internacional brincadeira combina com o sol pronunciado e cadente que artisticamente moldava a memória e os pensamentos.
Adulto sempre olha para a infância assim viva e na sua plenitude, com tom de admiração e condescendência, e não raro brota entre a trip a frase padrão, “aproveitem que a vida é dura!” ou termos do tipo que remetem ao mesmo fim, a saudade da época onde boletos, compromissos, separações, disputas profissionais não ditavam os rumos da brincadeira.
A algazarra preenche a resumida garagem e agora a litania se volta a uma bola e se vai e vem impulsionado por pés ligeiros, mostra como somos moldáveis aos rumos de outras forças que não a nossa, buscamos ir para rumos certos que naquele caminho menos pedras são encontradas, mas o asfalto com o sol em progressão não é a estrada que se molda no olhar por vezes revoltado.
Buracos, desvios, encruzilhadas seduzem este indivíduo agora invejoso, a nutrir revoltas, e esta pronta a fórmula para um néscio adulto recalcitrado que, sob as vozes de lunáticos aproveitadores, não escutam a ciência e preferem o grupo do zap. Endeusam sua geração e denegri o futuro com palavras prontas, passam panos quentes em um passado terrível em nome de uma incapacidade de gerenciar seus erros, alavancam indivíduos tacanhos ao status de Messias.
É notório que a dose de erro geracional não é bebida por todos, há quem veja nestas jovens vozes a continuidade desta espécie tão contraditória como a sim mesmo, mas que observa esperança em um futuro que não erre os mesmos erros.
Há também os que vão além, escolhem com labuta ensinar a estes jovens os cálculos e a escrita da vida. Professores. Sim uma espécie de vampiro que nem Anne Rice, Daltom ou Bram Stoker imaginariam, alguém que se alimenta da energia e do garbo de quase nada saber, oriente-se pelo norte da explosiva vontade de viver, move-se pelo afã de orientar, e não se cansa além do que é plausível.
Ah! Mas o adulto funesto rende mais escrita, ele reclama, xinga e absorve com espasmos seu próprio fel, afogando-se em uma desesperança sem raio de sol e com nada de plástica.
Não reconhece a sagacidade da imprevisibilidade e tudo deve ser a longo prazo, contado, calculado, não percebe a surpresa contestadora de uma obra de arte moderna e braveja imbuído de conceitos que não domina replicados em um ambiente seviciado, onde os conceitos não são cozidos e crus são tratados. Ataca, este animal acuado, tão pequeno que grita como se este ato fosse um elixir de crescimento para si, e neste eco ignóbil, convence a si mesmo de sua cegueira e o lastimável, contagia outros irmãos em sua decrepitude de pensamento.
A vida não me espera, ou seja, pronto ou não ela vem, é neste ínterim que habita o gozo dourado do amanhecer, a descoberta mais surpreendente. Ir além do que as retinas podem mostrar, o não saber, mas não por vontade deliberada, mas porque saber não constrói este mesmo saber, a pergunta que cimenta a parede desta habilidade é o alvo desde os primórdios.
Esconder, onde está meu amigo? Procurar e encontrar bem mais que uma pessoa, encontra este eu tão perdido na estação, a deriva e abraçados curar o ontem e o hoje. Talvez a brincadeira de viver seja mais fácil assim.
Autor: Alceu Amaral

