Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Balaio de Feira

29/10/2003

Ando num surto de megalomania só. Desde que nasci. Mas é uma megalomania modesta. Sou uma contradição ambulante. Critico quem se leva a sério e fala bem de si mesmo. Rio e falo mal de mim mesmo. Sou adepto do 'falem mal, mas falem de mim'. Nem que seja eu mesmo. Não suporto autopromoção. Exceto negativa ou pelo bem dos malditos. Nesta semana, fiquei deslumbrado com as calcinhas fio-dental, última moda na França, que estão tirando o sono de autoridades e de sociólogos de espada em riste, sem contar os homens em condições de arrancá-las. Fala-se em rito de passagem à idade adulta. Na França, até tamanho e formato de calcinha dá teoria. É mais palpitante que estudar Kant.

Sempre me choquei com as calçonas das francesas. No Brasil, preocupa-me o avanço das cuequinhas fio-dental. Eu estava meditando sobre um estudo comparado entre calcinhas francesas e brasileiras, para o qual pretendia requerer verbas oficiais, a fim de uma pesquisa in loco e com uma vasta população-amostra (ou à mostra?), em Paris, quando percebi que muito se falou de Júlio de Castilhos na última semana e pouco de 'O homem que inventou a ditadura no Brasil', obra-prima de Décio Freitas sobre o 'gaguinho da Federação'. Larguei as calcinhas. Sérgio da Costa Franco e Décio Freitas são 'os' especialistas em Castilhos. Não entendi os organizadores do evento que homenageou nosso déspota quase esclarecido: trouxeram o bom Joseph Love dos Estados Unidos e não convidaram o Décio. Santo de casa...

Troquei o Gaguinho e as calcinhas pelas minhas contradições. Sábado, às 17h, na Feira do Livro, vou autografar os três volumes de 'Mitomanias' ('Nau frágil', 'Ela nem me disse adeus' e 'Adiós, baby'). Isso é autopromoção deslavada. Negativa. Na última vez que autografei, em 1998, tive uma fila de menos oito leitores (o espaço do vizinho encheu e as pessoas vieram para o meu lado vazio). Como megalomaníaco modesto, sou vaidoso e autocrítico. Elementar! Para atrair público e salvar a colheita, bolamos uma série de estratégias de marketing. Algumas literalmente apelativas. Se a Bienal pode... Meu marqueteiro queria que eu fosse só de calcinha fio-dental. Achei prudente escalar cinco francesas e cinco brasileiras em torno de mim, umas de calcinha fio-dental e outras de calcinha banda larga. Se os livros fracassarem, entro no comércio de lingerie. Ou caio na vida. (juremir@pucrs.br)


(Correio do Povo - Porto Alegre)

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