Editora Sulina
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´Frio` é apontado um dos melhores livros de ficção de 2001

03/02/2002

O Mal-estar da linguagem
Uma aproximação entre os livros “Eles Eram Muitos Cavalos”, do mineiro Luiz Ruffato, e “Frio”, do gaúcho Paulo Bentancur


Flávio Aguiar*

“Dois dos melhores livros de ficção publicados em 2001 têm um tema comum: o mal-estar da linguagem. Os livros são o romance Eles Eram Muitos Cavalos, e a coleção de contos Frio (Sulina), do gaúcho Paulo Bentacur. O que é o mal-estar da linguagem? É a consciência de que neste tempo de velocidades comunicativas incríveis, a linguagem não une nem vence distâncias; ela separa e isola. Ela torna um instrumento de cooptação pela solitude construída como defesa — defesa dos outros e de si próprio, dos impulsos irrealizados que ameaçam a estabilidade subjetiva.”
“...Frio, de Bentacur, por outra ponta, discerne a mesma problemática. Não há interlocução, não há interlocutores. Os narradores de Bentancur privilegiaram as vivências e as cenas íntimas de seus personagens. Mas estes, curiosamente, não desfrutam, no fundo, da própria intimidade, atravessados continuamente por impulsos que não compreendem. E num mundo em que, como registra um de seus personagens (do conto A Anã, um dos melhores do livro), morreram os costumes, o direito, a honra, a piedade, a fé, e aquilo que nunca volta quando perdido: o pudor.
O frio que se refere o título do livro não é a condição metereológica (ainda que no conto-título faça, objetivamente frio). É o frio da expressão ficar frio. Ou seja, não importa o que aconteça ou não aconteça, o importante é ficar frio, ponto inicial e final do manual de sobrevivência nesta selva selvaggia em que nos é dado viver. E assim desfilam ante os leitores o namorado que oferece despudoradamente a namorada ao amigo, o comprador de casas em ruína que ninguém compreende, o projeto de amante que imagina desejar a formosa loura quando na verdade deseja a anã, os colegas que se espionam e se odeiam, o zelador que transa com a inquilina menor como quem pinta apartamento, e assim por diante.
Nesse mundo sem pudor, onde o ódio é apenas um luxo da inveja (como no conto Diante do Túmulo de meu Pai), escrever também é uma estratégia de sobrevivência. Bentancur ironiza constantemente essa estratégia, seja através do editor que aceita a literatura ruim de um candidato a escritor apenas para roubar-lhe a namorada (Nossa Obra-Prima), seja através dos escritores que abrem uma editora e depois não sabem o que editar (A Arte da Recusa)”.

* Professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), autor de Anita (romance), prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, 2000.

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