Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Walter Galvani fala sobre ´Ana sem terra`

23/04/2002

ANA CONTINUA SEM TERRA, MAS TEM LIVRO

Desde que me asseguraram o direito de falar durante alguns minutos sobre este livro de Alcy Cheuiche, que atinge à assombrosa cifra de 8ª edição, num país onde as obras literárias costumam perecer no esquecimento ou de mortalidade infantil, tentei convencer-me de que não era demagógico o título que eu havia escolhido. Não consegui convencer nem a mim mesmo e tenho certeza de que também não convencerei os demais, mas ao mesmo tempo não me sai da cabeça e não creio que possa haver algo mais verdadeiro: “Ana continua sem terra. Pelo menos tem livro. E como!”
Li a primeira vez esta obra de Cheuiche no verão de 91, se estou bem lembrado – tenho a primeira edição – mas decidi fazer uma releitura agora, em 2002. Desde então transcorreram quase doze anos completos do seu lançamento e é impressionante como pouco ou nada mudou nesse país. Ao mesmo tempo, chamo em meu socorro Álvaro Mutis, o grande escritor colombiano - aliás ganhador do Prêmio Cervantes desse ano e que bem que deveria ser mais conhecido aqui - aconselhando febrilmente a releitura:
“Dá surpresas extraordinárias. Podem se passar duas coisas: o livro que nos chamou a atenção e que nos acompanhou durante um tempo, de repente não nos diz nada. Mas pode suceder o contrário. A vida te vai carregando de experiências através das quais estás vendo coisas que o autor colocou em seu livro e tu não podias ver nem perceber e que agora te esmagam.”
E eis o que sucedeu comigo neste mês de abril lá em Canasvieiras. Primeiro peguei o livro do Cheuiche e disse para mim mesmo: “Tens que lê-lo outra vez. Mas será que resiste ? O que o Alcy falou já não terá mudado ?”
Fiz uma ficha e pacientemente comecei a fazer anotações. Sei aonde está a primeira citação direta aos “sem terras” – página 34 - quando o deputado Camargo pergunta aos fazendeiros na Exposição de Animais, “Por falar nisso, como anda a movimentação dos sem-terra lá ma fronteira ?” – sei quando o autor cita o chargista Sampaulo, meu saudoso companheiro de redação da Folha da Tarde (também de saudosa memória...) na história de um touro que não podia reproduzir, e como encontro uma lição de vida no campo, com a cena da doma, que está na página 67 e assim por diante.
Aos poucos mergulhando na releitura descobri que Cheuiche entende e examina com precisão não só a vida no campo, como também passa pelo Exército como corporação, uma entidade “sem divisão de classes”, pelo menos então, de repente a politização desta mesma instituição, a Reforma Agrária, palavra proibida desde 64 e daqui a pouco, Ana salta para a vida, pela altura da página 92.
Surpreendo-me como o autor sabe tanto, aqueles detalhes da tortura, e me pergunto se ele “é” o Rafael, tenente mais adiante no livro, já que foi para Paris, viveu na rue de Broca, estudou veterinária.
E é então que bate uma brisa na praia de Canasvieiras e espalha meus papéis e minhas anotações. Que pena! Escapou-me tanta coisa para ajudar a orientar os leitores. Em que página está a magistral citação a Joaquim Francisco de Assis Brasil ? Onde é que se fala no incrível “povoamento” do campo rio-grandense com l boi por hectare ? Onde reencontrar esta frase do mesmo Assis Brasil, uma jóia: “O homem que se apresenta com uma novidade torna-se logo um ser odioso a todos os rotineiros. Infelizmente, isso é humano. É que o inovador vem quebrar a corrente do sentimento geral, e essa quebra não se faz sem dor ou irritação.” E aonde é que ele diz que “com 87 hectares bem aproveitados, um agropecuarista poderia produzir o mesmo do que numa área mal aproveitada cinqüenta vezes maior”.
Era a condenação do latifúndio – exclama o autor-narrador Alcy Cheuiche que não se contem e intervem diretamente para ajudar a difundir a lição do grande mestre esquecido como tantos inovadores no longínquo passado rio-grandense.
E a Ana que de sem terra acaba escritora, contando a própria experiência, na esperança de contribuir com alguma coisa para a “grande estância de São Pedro”, Ana na televisão promovendo seu livro que é a história de sua vida, dizendo “não adianta fazer discursos, pregar ideologias para quem não pode tomar banho. Para quem não dorme em lençóis limpos.”
E por aí vai Alcy Cheuiche: “A morte, o sofrimento dos miseráveis não escandaliza ninguém. Por mim podem tirar a palavra Ordem da bandeira”- diz a sua Ana. Daqui a pouco ela fala sobre “os trombadinhas de hoje e os assaltantes de amanhã” e enfim o livro vai até ao epílogo incrível, que naturalmente não vou contar, para não estragar a leitura, releitura ou... “tri-leitura” para ser bem porto-alegrense.
Então quem é esta Ana que continua sem terra, mas que pelo menos tem o seu livro, quem é o Rafael, o fazendeiro Silvestre Bandeira, o padre Willy, quem são todos esses personagens reais e ficcionais que permeiam este livro que tão notavelmente se perpetuou, não apenas pelos fatos reais em que alicerça, mas também pela análise sociológica, histórica, de um escritor que tem olhos para ver o passado e pressentir o futuro ?
Eu próprio respondo, não com minha voz, mas com a palavra de Miguel de Unamuno, em “Como se faz um romance”:
“Disse eu que nós, os autores, os poetas, nos colocamos, nos criamos em todas as personagens ficcionais ou apenas poéticas que criamos, mesmo quando fazemos história, quando poetizamos, quando criamos pessoas que julgamos que existem em carne e osso fora de nós.”
Para ir mais longe:
“Dom Quixote é para nós tão real e efetivo como Cervantes, ou melhor, tanto o é este quanto aquele”.
E para concluir:
“Todas as criaturas são o seu criador.”
Ah, menti quando eu disse que o vento da praia havia dispersado minhas anotações. Ele fez trotear meu pensamento, isto sim. Vaguei por aí, pensando quanto tempo as Anas continuarão sem terra, num país imenso como esse, com milhões de hectares em terras devolutas, por quanto tempo continuarão perseguidos e injustiçados os que lutam por um pouco de igualdade, por quanto tempo desmandos, invasões, reações armadas serão o panorama do que deveria significar harmonia, produção, bons negócios porque não ? – paz, entendimento, e até um pouco daquilo que aprendemos como “cristianismo”?

Walter Galvani


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