Editora Sulina
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Conyvência

19/06/2005

A culpa é do José de Alencar. Como diria o Lulla, 'estou convencido'. Percebi isso quando compreendi a lógica do jornalismo cultural de 'conyvência': cada vez que Carlos Heitor Cony lança um livro, lembra-se de um amor perdido, chora no aniversário de morte da sua cadela, cuja foto carrega na carteira, ou recorda-se da sua militância contra o regime militar, o que lhe vale R$ 19 mil de aposentadoria, a Folha de S. Paulo dedica-lhe uma página. A mídia da província vai atrás. A culpa é do José de Alencar. Por tudo. Darei alguns exemplos esclarecedores.

Começo com a lista de livros mais vendidos da revista Veja: Ficção: 1) 'Assassinatos na Academia Brasileira de Letras', de Jô Soares; 2) 'O código Da Vinci', de Dan Brown; 3) 'Fortaleza digital', de Dan Brown; 4) 'Anjos e demônios', de Dan Brown; 5) 'O Zahir', de Paulo Coelho; 6) 'O Guia do Mochileiro das Galáxias', de Douglas Adams; 7) 'O enigma dos quatro', de Ian Caldwell e Dustin Thomason; 8) 'As cinco pessoas que você encontra no céu', de Michel Albom.

Não-ficção: 1) 'Amor é prosa, sexo é poesia', de Arnaldo Jabor; 2) 'Almanaque anos 80', de Luiz André Alzer e Mariana Claudino; 3) 'Ainda lembro', de Jean Willys. Esse terceiro lugar é decisivo para uma mutação universal. As lições de vida do Big Brother Jean Willys em terceiro lugar na lista dos mais vendidos significam algo radical. O quê? É como se um treinador de futebol publicasse suas sábias preleções aos jogadores: 'Precisamos de muita pegada'. O leitor surpreende-se: 'Nossa, eu nunca tinha pensado nisso'.

A culpa é de José de Alencar (o escritor, não o vice-presidente da República). A lista ainda tem preciosidades catapultadas pelo resenhismo de 'conyvência' como 'Na toca dos leões', de Fernando Morais, que se especializou na literatura de promoção e encomenda, e 'Minhas histórias dos outros', de Zuenir Ventura, o rei da pieguice capaz de render bons direitos autorais. Morais recebeu uma boa ajuda publicitária da estupidez do latifundiário Ronaldo Caiado, que o brindou com um processo judicial. Deve estar recebendo mensalão pelo marketing. Tudo se interliga. A culpa só pode ser do José de Alencar. Vejamos: Jean Willys chega ao terceiro lugar na lista dos mais vendidos; um estudioso dos EUA garante que televisão e video game estimulam mais a inteligência do que ler; cientistas americanos apostam no racismo a favor e sugerem que os judeus são o povo eleito geneticamente (ganhar o Nobel torna-se uma prova de seleção natural das espécies e, em breve, será descoberto o gene do Nobel); a mídia, cientificista por ignorância, vibra. Mas a cultura judaica não precisa disso. Edgar Morin, judeu, resistente ao nazismo, que completará 84 anos no dia 8 de julho, um dos últimos monstros do pensamento francês em atividade, cujo último livro, 'O método 6, a ética', é um tratado de tolerância e complexidade, foi condenado por um tribunal da França, acusado de 'injúria racial', por ter escrito que Israel, nação de perseguidos, persegue e humilha os palestinos. A culpa é do José de Alencar.

Na mesma linha de raciocínio dos tais cientistas americanos, ao ver Jean Willys, herói nacional do BBB, em terceiro lugar na lista dos mais vendidos, e Dan Brown dominando a ficção, formulo duas hipóteses. A primeira é altamente sofisticada: a humanidade é mesmo idiota e televisiva (o que serve de atenuante para o Brasil, pois somos apenas uma parte da humanidade); a segunda é mais tosca e difícil de demonstrar: a culpa é de Alencar. Nas escolas do ensino médio, os alunos são obrigados a ler José de Alencar. Perdem o interesse pela literatura e o senso crítico para sempre. Caem na cultura de 'conyvência'. Passam a ler Jô Soares, Zuenir Ventura e Jean Willys. Basta de José de Alencar. Ler não é bom em si. Ler 'Harry Potter' forma para ler Paulo Coelho e Dan Brown. Com Adam Thirwell, Chuck Palahniuk, Michel Houellebecq e Paul Auster como leitura na adolescência o mundo nunca mais seria o mesmo. Cada país tem o seu José de Alencar. Definitivamente, o Brasil nunca mais será igual depois de Lulla e Roberto Jefferson nem depois que Jean Willys entrou na lista dos mais vendidos. Conyvente: aposentadoria para anistiados que incomodaram pouco a ditadura e ocupam espaço demais na imprensa amiga. Tudo se interliga. O Brasil nunca mais foi o mesmo depois de José de Alencar. (Correio do Povo)

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