Editora Sulina
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Sobre ´O Próximo amor` (O Globo)

30/04/2002

Amor e política nas obras de um francês preocupado com seu tempo
(Adriana Pavlova)

Escritor e músico, o francês Yves Simon intitula-se um arqueólogo do nosso tempo. Seus livros e suas músicas tratam do mundo de hoje, misturando doses de frustrações, alegrias e horrores com sutis influências de monstros culturais como Flaubert e Camus. Sua fala, mais do que nunca, é carregada de idealismo e reflexão. Para ele, não há como desvincular sua arte de acontecimentos políticos, como o resultado do primeiro turno das eleições francesas para a presidência, que evidenciou a ascensão da extrema-direita de Jean-Marie Le Pen.

É com esta mistura de arte e política que Simon, um típico remanescente da geração de maio de 68, pretende seduzir os cariocas em sua primeira visita ao Rio. O artista multimídia, que veio ao Brasil para participar da Bienal do Livro em São Paulo, faz uma palestra-show hoje, às 18h, no Espaço Cultural Maison de France, para lançar “O próximo amor” (Editora Sulina), nono livro de sua carreira e o primeiro editado aqui.

— Sempre explorei de forma mais ampla a política nas minhas canções, porque sinto-me um arqueólogo, alguém que desvenda o seu tempo — diz ele. — As minhas músicas falam do mundo de hoje, retratam, como um jornal, o dia-a-dia da sociedade, a maneira de as pessoas pensarem, como elas se movimentam, como vivem. E é nos livros que essas questões surgem ainda mais aprofundadas. Meus romances retratam a complexidade do mundo de hoje.

O encontro desta noite pretende ser íntimo e casual, bem ao gosto de Simon, que há muitos anos decidiu deixar os grandes palcos para se concentrar, sobretudo, na composição e na gravação de seus discos e na preparação dos livros. A conversa será pontuada por músicas, principalmente de seu trabalho mais antigo — mais ligado à voz e ao violão — enquanto ele pretende falar sobre a arte de escrever, sobre o novo livro e, é claro, sobre o furacão político que passou pela França nos últimos dias. — Observadores e intelectuais estão tentando entender o que se passou — diz ele, que volta no fim de semana para Paris, onde mora, na véspera do segundo turno das eleições, quando votará em Jacques Chirac. — Não somos um país de extrema-direita. É verdade que 17 ou 19 por cento dos votos para a extrema-direita é muito, mas não é a maioria. Ainda não tínhamos nos dado conta do tamanha da fratura social dentro do país.

Curiosamente, é o livro menos político de toda a carreira de escritor de Simon que o trouxe ao Brasil. “O próximo amor” é um tratado sobre paixões enlouquecidas e a busca do amor pela lente de um homem experiente de quase 60 anos. Sedutor, ele diz que trata-se de seu livro mais autobiográfico, algo ao mesmo tempo próximo e distante de seu maior sucesso, “La dérive des sentiments”, traduzido em cerca de 14 países e com cem mil exemplares vendidos:

— Enquanto em “O próximo amor” falo da loucura de se apaixonar, da doença que pode ser o ato de se apaixonar, em “La dérive”, parto de personagens de três gerações de europeus para falar de sentimentos e para mostrar as mudanças numa sociedade.

Sem fórmulas prontas para conciliar a carreira dupla, Simon aproveitou o descanso entre “La dérive de sentiments”, lançado em 1991, e “O próximo amor” para fazer seu disco mais recente, lançado em 2000, no qual assume influências bem mais contemporâneas, como o Massive Attack, sua banda de cabeceira.

— O estilo do disco é a mistura, com canais de gravações variados, orquestração, fala e muitas coisas ao mesmo tempo — diz ele, que de volta a Paris retoma se projeto mais recente: um filme.

YVES SIMON: terça, às 18h, no Espaço Cultural Maison de France. Lançamento de “O próximo amor” (Editora Sulina). De graça.

leia em: http://oglobo.globo.com/cultura/eventos/

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