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Armand Mattelart na Bienal

22/05/2005

Palavras não nascem em árvores nem caem do céu. Para o pensador belga Armand Mattelart, 69 anos, professor de mídia da Universidade de Paris, é preciso buscar sempre as raízes delas, principalmente quando se trata da discussão sobre a sociedade contemporânea, cheia de termos apontados por muitos como mágicos, tais como ''globalização'', ''sociedade da informação'' ou ''cibercultura''. No Rio desde quinta-feira, quando participou do debate A utopia informacional na Bienal do Livro, que termina hoje no Riocentro, ele diz que quem usa essa terminologia, teoricamente ou não, precisa ser lembrado de que as palavras nascem, vivem e morrem.
- Falta perspectiva histórica nessas análises. São termos que são usados sem raiz, que viram clichês. É como se processos como a globalização tivessem aparecido do nada nos anos 80. A palavra ''globalização'', por exemplo, surgiu nessa época, com a desregulação dos sistemas de comunicação e dos sistemas bancários - afirma, em entrevista ao Jornal do Brasil.

O debate na Bienal discutiu a visão ultrapositiva sobre esses termos, o que se tornou um lugar-comum no mundo contemporâneo. De fato, só há pouco tempo a internet e a era digital deixaram de ser vendidas como bens absolutos, utopias de democratização da informação e de redução de desigualdades. Nos últimos anos, todo esse discurso, um bocado por conta de pensadores como Mattelart, de panacéia virou placebo.

- Demorou um pouco para o discurso crítico sobre esses fenômenos ser ouvido. Porque rapidamente se estabeleceu uma visão positivista de rede - afirma Mattelart.

Ele usa como exemplo desse erro historiográfico o sinônimo ''mundialização'', preferido no lugar de ''globalização'' pelos franceses e por vários pensadores, sobretudo os mais à esquerda:

- Ele foi construído no final do século 19, por pessoas que pensavam o processo de integração do mundo a partir de uma perspectiva de interdependência solidária, o que remete a uma metáfora biológica. Mas o termo ''mundialização'', hoje, não trabalha com essa perspectiva solidária. Pelo contrário, quem tem uma perspectiva solidária está justamente nos movimentos antimundialização. A ação americana, a mais ''mundializante'', é justamente antagônica a uma visão solidarista.

Mas, afinal, é um problema real utilizar uma terminologia sem reparar de onde (e quando) ela veio? Que conseqüências políticas há na escolha de um ou outro termo?

- O problema de vários pensadores contemporâneos, como o espanhol Manuel Castells, é não se perguntar a origem dessa terminologia e não notar que esses termos passam uma visão de mundo.

Pois então, nos últimos 15 anos, Mattelart tem se dedicado a analisar toda terminologia que, segundo ele, tem uma ''concepção de reordenação do mundo''.

- Comecei com a palavra ''comunicação'', que me parece ter construído o ocidente. A noção ocidental de ''rede''. A idéia de ''sociedade da informação'', hoje, debruça-se sobre a de ''diversidade cultural''. Essa abordagem histórica é uma questão intelectual, mas é, antes de tudo, uma questão política. Hoje, no debate internacional, na Organização Mundial do Comércio, na União Européia, é sempre em torno de definições terminológicas que se age. Por exemplo, o problema essencial da Convenção pela Diversidade Cultural da Unesco foi em torno de terminologia - explica ele.

Para Mattelart, então, trata-se de uma questão política. Professor da cadeira de mídia e estratégias dos atores sociais, na Escola de Ciência Política da Universidade de Paris, ele afirma que a utilização de um termo de outra origem para designar um fenômeno novo, que tem sua história própria, está relacionado com a utilização da reputação história do termo para favorecer a nova idéia:

- Isso mostra que há um problema terminológico muito sério e que a batalha das palavras tem um forte papel político. As palavras carregam o poder.

Oriundo da juventude católica na escola secundário, Mattelart juntou-se no começo dos anos 50 a um monastério na França. Queria seguir a carreira religiosa e ali se aproximou dos movimentos sociais da Igreja católica. Não chegou a virar padre. Um ano depois, voltou à Bélgica, onde se formou em direito e ciência política e, depois, em estudos demográficos. Em 1962, estabeleceu-se no Chile, graças a uma nomeação do Vaticano, como especialista em populações do terceiro mundo (conceito que ele ajudou a consolidar). Em sua nova casa, um ano depois da chegada casou-se com Michelle, cientista social que conheceu em seus estudos na Bélgica e que tem escrito com Marttelart alguns de seus principais trabalhos.

Essa biografia ajudou a formar a personalidade universalista que o levou a se tornar assíduo em eventos como o Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, ou a conhecer bem o Nordeste brasileiro.

Em seu trabalho, ele acredita que se tornou uma verdadeira obsessão, para uma certa ciência social e uma certa tendência política, usar a metáfora em torno da palavra ''rede'' como modelo para tudo que acontece no mundo. Tudo hoje tem que ser internético, tem que ter forma de rede.

- A rede tem uma genealogia, uma história longa. O termo está desde o século 19 no centro da polêmica sobre a concepção de sociedade. A organização do Estado nos EUA foi em rede. A primeira polêmica do século 19 foi a rede como unidade centralizadora. No fim daquele século, um modelo igualmente centralizador apareceu no modelo da difusão da eletricidade. Agora, no fim do século 20, apareceu um modelo de pensamento que lida com uma concepção tecnodeterminista, a visão utópica de que suprimir a distância física é suprimir a distância social.

Mas ele não acredita, claro, que se trate de uma manipulação maléfica, uma conspiração.

- Não acredito em complôs. O que há é um projeto orgânico, um sistema que se construiu a partir de um modelo de racionalidade estabelecido positivamente.




(por Alexandre Werneck)

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