Editora Sulina
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As virtudes da maldição (Correio do Povo) por Juremir Machado da Silva

26/05/2002

Como é bom ser maldito! O sujeito já acorda levando bordoada. Quando alguém elogia, o maldito estranha, fica desconfiado, cai na paranóia. O seu estado natural é a crítica. Traduzi, recentemente, dois extraordinários romances para a Editora Sulina: 'Extensão do domínio da luta', de Michel Houellebecq, e 'O próximo amor', de Yves Simon. Faço propaganda em causa própria sem ficar vermelho. O pau os outros dão. Só a revista Veja publicou elogioso texto de Moacyr Scliar sobre Houellebecq. Mesmo o JB do meu amigo Augusto Nunes destruiu. Melhor assim. Sem imunidade.
Aviso aos leitores: os livros estão com ótima saída. Cada vez mais, o público percebe os ressentimentos e a maldade dos resenhistas. Não se deixa de comprar por causa de opiniões exibicionistas de jornalistas em busca de alguns trocados e de 40 linhas de visibilidade. A maioria dos jornais nem se dá o trabalho de criticar. Silencia. Como se sabe, um livro sem o selo da Objetiva, da Companhia das Letras ou da Record só pode ser ruim. Os resenhistas, em geral, não passam de tristes figuras incapazes de diferenciar um texto literário de uma bula de remédio. Escolhem pela marca. Nada de genéricos. Fazem bem.
Augusto Nunes, atual vice-presidente do Jornal do Brasil, convidou-me para ser o editor do Caderno B, no Rio de Janeiro. Recusei por covardia. Sou escritor (bom, não exatamente, mas publiquei três arremedos de romance), tradutor, ensaísta e maldito. Se aceitasse o cargo, ficaria tentado a abrir espaço para gente do Rio Grande do Sul, do Pará, do Maranhão, do Paraná, do escambau. E não pouparia, por exemplo, os maus livros das donas do poder. Acertaria contas com Deus e todo o mundo. Sou um ressentido. A Companhia das Letras, a Objetiva e a Record me derrubariam em três toques. Fico onde estou, atirando pedras na Lua.
Diogo Mainardi, meu leitor no CP, enviou-me um e-mail dizendo que não entende por que a minha coluna não é publicada também em jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Augusto Nunes, depois que recusei o convite para ser editor do Caderno B, cogitou justamente de me dar uma coluna semanal no Idéias, o caderno de cultura do JB. Deve ter esbarrado na resistência do baixo clero. Era mais fácil bancar o cargo de editor que o de colunista. Imaginem a confusão que teria de enfrentar quando eu baixasse o cacete nos queridinhos da mídia carioca. Sou muito perigoso.
Por onde passei, fui detestado pelos subalternos e admirado pelos altos escalões. Devo ser muito pelego. Até alguns líderes do PT gostam de mim. Já os militantes me odeiam. O problema é que o baixo clero tem o poder real. Augusto Nunes é um jornalista maravilhoso, o melhor texto do país. Há pouco, liquidou o abjeto deputado Roberto Jefferson com um artigo de uma ironia genial; e escreveu, a respeito de 'Abril despedaçado', o melhor comentário que uma obra de arte pode esperar: o da reflexão elegante. É o único jornalista de quem tenho inveja positiva (além do Diogo). Queria escrever como ele. Dos outros, tenha inveja negativa mesmo.
Mas nem mesmo o genial Augusto Nunes poderia segurar, em território inimigo, a violência deste franco-atirador. Fora de casa, viro um serial killer. Precavido, escondo-me no Bom Fim. Os cadernos de cultura são a melhor expressão do compadrismo no Brasil. Nem a política faz melhor. Posso gabar-me de ser um dos poucos a ter muitos amigos na mídia e nada de favorecimento. Apanho invariavelmente. E revido. Mas não surte o mesmo efeito. Todo mundo sabe que é puro troco. Em todo caso, detonar Houellebecq só serve para fortalecê-lo. É típico dos esquálidos escrevinhadores brasileiros. Faz mais de 20 anos que não aparece um novo escritor no Brasil. Nem adubando dá. Santa maldição!
Com Yves Simon a coisa já é mais complicada. Autor de um romance tão delicado e sentimental, pode ser desprezado por saber contar histórias de amor como poucos. Tudo o que qualquer candidato a escritor no Brasil sonha e não consegue. O bom de ser maldito é que por não se esperar mais nada pode-se dizer tudo. Como afirmei outro dia, agora sou um escritor completo: autor e meu público ao mesmo tempo. Tenho uma novela pronta, Nau frágil, e três romances inacabados, Parelelas, Getúlio e Rio breve. Qualquer hora, faço a alegria dos meus críticos e publico um deles.

E-mail:juremir@pucrs.br

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