Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

A Modernidade do Amor

07/07/2002

por Eron Duarte Fagundes (Crítico de cinema)
O escritor inglês Edward Morgan Forster (1879-1970), autor de ao menos duas das mais belas histórias de amor da literatura do século XX, Uma janela para o amor (1908) e Howards End (1910), foi bastante implacável ao falar da presença do amor nos romances. Anota Forster em Aspectos do romance (1969), um ensaio tão descontraído quanto arguto: "O amor". Todos vocês sabem o espaço enorme que o amor ocupa nos romances e, provavelmente, concordarão comigo que isso os tornou monótonos e causou-lhes danos. Por que essa experiência particular tem sido transplantada em quantidades tão generosas, especialmente na sua forma de sexo? Se vocês pensarem, de modo vago, num romance, pensarão em interesse amoroso - em um homem e uma mulher que querem se unir e talvez consigam. Se pensarem do mesmo modo em suas próprias vidas, ou em grupo de vidas, vão Ter uma impressão muito diferente e mais complexa.
Por que estaria o romance de amor fora de moda? Que é mesmo um romance de amor, se é que existe outro tipo de romance? Um intelectual sensível como Forster debocha da excessiva preocupação amorosa da maioria dos romances. O romance de amor, em seu sentido estrito, teve seu auge ao tempo da escola romântica, de que Werther (1774), do alemão Johann Wolfgang Goethe, foi o pico. A deterioração amorosa nos romances tem acompanhado os séculos e veio desaguar, no século XX, em radionovelas, fotonovelas e telenovelas. Não se pode afirmar que um romance de amor possa ser reduzido a estes pastiches. É fácil observar que a obra-prima da literatura brasileira, Dom Casmurro (1900), de Machado de Assis, trata de amor, ainda que de um amor dilacerado pela sombra (real ou imaginária) do adultério; evidencia-se que a mais importante obra literária do século XX, Em busca do tempo perdido (1923), de Marcel Proust, é uma aguda e extensa dissertação sobre as relações amorosas. Claro: nem Machado nem Proust constróem um romance de amor em seu sentido estrito: a delicadeza de linhas de, por exemplo, A Ladeira da Memória (1950), de José Geraldo Vieira, é que fornece o verdadeiro material do romance de amor.
Numa época marcada pela violência e pela banalidade o amor estaria em desuso e sua forma romanesca se teria tornado um arcaísmo estético.
Não é o que parece quando lemos um achado como o O PRÓXIMO AMOR (1996), romance do francês Yves Simon que a editora gaúcha Sulina em boa hora traz ao conhecimento do público brasileiro. Só mesmo um francês lograria misturar com tanta eficácia narrativa , pequenas elaborações intelectuais e exposições sentimentais para produzir uma obra de arte inteiriça, profunda, capaz de despertar parcelas adormecidas da alma do observador. Porque o que acontece mesmo durante a leitura do texto de Simon é que a alma do leitor está jogada nas páginas; a autenticidade e a veracidade das situações armadas pelo narrador, mesmo quando ele se desvia da ação para impor uma pausa reflexiva (como fazia Machado de Assis, e muita gente já esqueceu), aproximam indelevelmente leitor e livro, coisa meio rara na ficção contemporânea, em que as concessões aos lugares-comuns e à obscuridade formal têm decretado uma literatura muitas vezes distanciada e vazia, ora servindo de trampolim ao cinema ou à televisão, ora não querendo ser mais do que garatujas inconseqüentes. A volta à beleza clássica de Simon não é uma volta reacionária, é uma releitura do velho amor, pode ser que ele mergulhe em Proust ou Stendhal para produzir uma narrativa nova, "ondulatória e corpuscular". "Irene ilustra perfeitamente a teoria quântica que os físicos têm tanta dificuldade para vulgarizar aos leigos. (...) Igual ao elétron observado que não pode ser localizado, mas permanece numa zona de probalidade, Irene não pode, de modo algum, ser localizada." Quem mais poderia, com tanta força ficcional, buscar o amor no interior do átomo? Simon erige sua teoria amorosa dentro duma teia narrativa de extraordinário senso literário e valendo-se duma história plausível em que o protagonista navega entre lembranças femininas onde a onda mais alta é a personagem de Irene.
O lado obscuro do encontro de amor neste nosso planeta é revelado no breve diálogo final entre o narrador e seu amigo Walser, uma espécie de comentador das ações do protagonista. Quem disse, meu caro Forster, que o amor causa danos aos romances? Sobra no final do texto de Simon este dano de perplexidade do leitor ao debruçar-se sobre a impossibilidade de compreender este "instante extraordinário" que leva um ser humano a outro ser humano ao longo duma vida.

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