Editora Sulina
0

    Sua sacola está vazia.

As ‘maluquices’ do trânsito na internet

26/03/2007

Taxista de Porto Alegre transforma acontecimentos de seu cotidiano em crônicas” que fazem sucesso em blog

Rodrigo Martins (para Vida Digital - O Estado de São Paulo)

– Como seria melhor apresentar você aos nossos leitores: apenas taxista, taxista-blogueiro, taxista-escritor...?

– Ah, escreve apenas taxista. O resto vem depois. Meu blog é um hobbie. Sou um taxista que, por acaso, escreve na internet.

Foi esse o início da conversa do Link com o “taxista” Mauro Castro, 43 anos. A bordo de seu Uno vermelho 2005, ele seria apenas um entre os mais de 4.000 profissionais que, como ele, atravessam todo dia a cidade de Porto Alegre (RS) num entra e sai de passageiros.

Não fosse um detalhe: Castro é reconhecido em tudo quanto é canto. Tudo pelos “causos” que conta na internet e em um jornal popular.
No blog Taxitramas (http://taxitramas.blogger.com.br), ele traz relatos de traições conjugais, perseguições típicas de filmes policiais, crimes, acidentes... “Enfim, tudo de maluco que só é visto quando se fica todo dia dentro de um táxi”, diverte-se. Uma vez por semana, um “causo” novo ganha o site. Em quatro anos, o endereço já recebeu mais de 250 mil visitas.

Os mesmos textos também saem no jornal porto-alegrense Diário Gaúcho. Castro escreve semanal e voluntariamente para a coluna “Com a palavra”, onde divide espaço com “leitores-cronistas” como um pai-de-santo, um espírita e um advogado. “Mas devo muito à internet. O jornal me fez ser conhecido na cidade. A web levou meus textos para o Brasil e o mundo.”

Foi a rede mundial que permitiu ao taxista aparecer em revistas, jornais e até na TV. “Todos que me entrevistaram me encontraram pelo blog.” E foi graças à web que Castro conseguiu publicar um livro. “O cara da editora ficou sabendo do meu blog e resolveu entrar”, conta ele, que, em outubro, lançou o livro Taxitramas.

Segundo ele, o blog se tornou um ótimo “balão de ensaio” para o livro. “Normalmente, é preciso andar com os textos embaixo do braço e bater na porta das editoras. Não precisei disso. Elas me acharam pela web e viram os comentários positivos das pessoas no blog. É um atestado de qualidade.”

Antes de chegar ao livro, entretanto, Castro teve um longo caminho. Tudo começou em 2003. Ele, que sempre gostou de escrever mas “tinha preguiça”, certo dia teve uma corrida com um editor do Diário Gaúcho. “Ele ficou animado com as minhas histórias e pediu textos para avaliação. Mandei uma meia dúzia. E ele gostou.”

Na mesma época, o taxista foi ao dentista. Enquanto esperava ser atendido, folheou uma reportagem sobre blogs. Achou interessante e foi pesquisar mais na internet. “Tinha computador há um ano, mas não sabia usar muito. Só via notícias. Mas percebi que era muito fácil criar um blog. Até um taxista, como eu, poderia ter um.”

Nasceu o Taxitramas. Castro postava os textos que publicava no jornal. Nos primeiros dois meses, a audiência não era lá essas coisas. “Recebia um, dois comentários. Às vezes, nenhum.” Aí o blog saiu no site No Mínimo (www.nominimo.com.br) e a coisa deslanchou.

“Nesse dia, foram mais de 40 comentários.” Aí não parou mais. Outros sites e blogs indicaram o Taxitramas. Reportagens mostraram o inusitado taxista da internet. E Castro ficou famoso. “Tem gente que vem ao meu ponto só para ouvir minhas histórias. Me pedem autógrafos em tudo quanto é lugar: no camelódromo, no motel, no supermercado...”

Mas por que as histórias de um taxista atraem tanta atenção? “Um taxista tem uma visão diferente das coisas”, diz. “Conhecemos a cidade à fundo, temos contato com os mais diferentes tipos de pessoas. Ouço e vivencio histórias das mais estranhas. E publico isso.”

Para ter inspiração, Castro escreve no próprio táxi. Não, ele não tem notebook. É tudo no papel. “Pego os panfletos de propaganda que recebo no trânsito e rabisco no verso. Depois, vou para o PC de casa.” Segundo ele, essa é a melhor forma de não perder uma história. “Acontece muita coisa num táxi. Cada um que entra, é uma fonte para um texto.”

Link: hhttp://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=10504