Editora Sulina
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'Partículas Elementares' o filme e o livro

11/04/2008

Estréia hoje em Porto Alegre 'Partículas Elementares', adaptação para o cinema pelo alemão Oskar Roehler do romance de Michel Houellebecq. Ao mesmo tempo, como fazem os estrategistas de marketing de Harry Potter e da Mulher-Melancia, a Sulina está colocando nas livrarias uma nova edição do livro, traduzido por este humilde cavaleiro a serviço da cultura francesa no Brasil. Como já disse umas 15 mil vezes, se a minha memória não falha, eu me orgulho de ter introduzido a literatura de Houellebecq entre nós. O homem é um fenômeno planetário, tendo sido traduzido em mais de 50 países e vendido mais de 2 milhões de exemplares de obras que não interessam aos doces fãs de Paulo Coelho.
Na América Latina, Houellebecq é referência no Chile e na Argentina, países de cultura literária consolidada, com direito a Nobel de fato ou de direito. No Brasil, jornais mais cultos, como a Folha de S. Paulo, não poupam elogios ao último dos malditos franceses. Volta e meia, contudo, um leitor gaúcho me envia um e-mail dizendo que não gostou de um livro de Houellebecq. Vou prestar então um serviço de utilidade pública: dois tipos de leitores devem evitar os romances de MH: os que só gostam de histórias realistas, detalhadas e lineares, no estilo Erico Verissimo ou Graciliano Ramos, e os que só se encantam com invenções formais, neologismos e experiências de linguagem, no estilo Guimarães Rosa.
Michel Houellebecq é um paradoxo: apresenta uma prosa límpida, dessas que não exigem qualquer consulta a dicionário nem lembram complexos jogos de palavras cruzadas, e uma estrutura narrativa esfacelada. As suas histórias têm começo, meio e fim. Não necessariamente nessa ordem. O fundamental, porém, é o tratamento dos temas por meio de uma ironia selvagem, corrosiva, impiedosa e hilariante. Alguns dizem que ele é mal-humorado. Ao contrário, mal-humorado é o cara que não se mija rindo ao ler 'Partículas Elementares', 'Extensão do Domínio da Luta', 'Plataforma' e 'A Possibilidade de uma Ilha'. O único escritor brasileiro com o qual Houellebecq pode ser comparado é Machado de Assis. Pelo uso da ironia, do cinismo radical e da clareza da escrita.
Michel Houellebecq economizou, no entanto, a fase romântica que quase impediu Machado de Assis de escrever algo suportável. No fundo, é um cronista que escreve romances cruéis para satirizar o ridículo do nosso tempo pós-iluminismo. 'Partículas Elementares' é um tijolo nas vidraças ocidentais. O filme pode não ser tão bom quanto o livro. De qualquer maneira, chama a atenção para o olhar estrábico de onde partem os pontos de vista em jogo. O grande trunfo de Michel Houellebecq é ser feio, baixinho e com ar triste. A mídia nunca poderá transformá-lo em Chico Buarque. O valor daquilo que escreve é intrínseco. Não há transferência possível de capital de uma rubrica para outra. O resultado é bombástico e incomparável.
'Partículas Elementares' é antiépico. Também não é o elogio de uma contracultura auto-satisfeita e triunfante à moda da geração beat. É sátira. Houellebecq inscreve-se na linhagem que passa por Swift, Voltaire e pelo Flaubert de 'Bouvard e Pécuchet'. Admirador de Balzac e de Proust, ele pratica a derrisão. Otimistas ingênuos e pessimistas que se deliciam com o próprio sofrimento nunca o entenderão. Houellebecq é para quem pressente o muito de patético que há no grande teatro mundano atual.

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