Editora Sulina
0

    Sua sacola está vazia.

Maio de 1968, um furacão juvenil

11/04/2008

Muita gente, especialmente os mais jovens, não ouviu sequer falar de maio de 1968. Mas se beneficia dos seus resultados. A menina que leva o namorado para dormir na casa dos pais deve algo aos malucos de 68. Todo mundo que faz sexo antes, durante e depois do casamento tem dívidas a saldar com 68. Quem chama o chefe, o professor, a autoridade de tu deve parte dessa informalidade aos loucos do Quartier Latin.
A liberação das mulheres não teria ocorrido sem o empurrão daquele maio inesquecível. Quase tudo isso, enfim, está direta ou indiretamente ligado ao imaginário de maio de 1968, a famosa revolução estudantil francesa que queria encontrar a praia sob os paralelepípedos, colocar a imaginação no poder, acabar com a chatice da vida regrada e proibir as proibições. Foi talvez a maior revolta contra o moralismo em todos os tempos. Edgar Morin estava no Brasil, no Rio de Janeiro, quando tudo começou, mas voltou para casa a tempo de participar da grande festa.
Morin entusiasmou-se com a comunidade estudantil e não lhe poupou elogios com o tom adequado para a época, um misto de elegia libertária e de evocação do paraíso possível: 'Ela é rica, louca, genial como uma revolução. Assim como uma revolução ela é uma explosão utópica (...) um êxtase da história (...) que põe em contato os indivíduos e os grupos em surtos de fraternidade e generosidade'. Maio de 1968 foi um levante contra a mediocridade da vida cotidiana. A juventude estava cansada de moralismo e de autoritarismo. Foi uma onda de liberação geral que passou por cima do marxismo, do comunismo e do capitalismo.
O que sobrou disso tudo? Não são poucos os que acusam 68 de ter gerado as grandes crises do mundo atual, entre as quais a desestruturação da família. É claro que Edgar Morin não pensa assim. O final do século XX, especialmente a partir de 1980, consagrou o retorno do conservadorismo. Os yuppies tentaram enterrar os hippies. Ganhar dinheiro tornou-se novamente o ideal maior. Nas brechas, porém, a contracultura permanece uma força decisiva. Talvez se esteja mais próximo hoje de um ponto de equilíbrio entre o desejo de estabilidade material e a necessidade de romper, sonhar e dar à vida a sua dose de poesia. Enfim, ouvindo Morin, cada um poderá se perguntar o que restou do nosso passado recente. Quais são as nossas utopias?

Link: www.correiodopovo.com.br