Editora Sulina
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Edgar Morin, o mestre em cena

11/04/2008

Segunda-feira, 14 de abril, às 19h30min, no Salão de Atos da Ufrgs, começa a nova temporada do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul/Brasken com apoio da PUCRS, da Unisinos, da Uergs e da Ufrgs. Para iniciar em grande estilo, num evento que contará com muitas estrelas, nada melhor do que um grande intelectual, um dos últimos da época dos maîtres-à-penser, aquela que teve no engajado Jean-Paul Sartre, talvez, o seu símbolo maior. O homem é Edgar Morin. Nascido em 1921, Morin completará 87 anos em julho. Lançou o primeiro livro, 'O Ano Zero da Alemanha', no longínquo ano de 1946. A editora Sulina, responsável pela publicação das principais obras de Morin no Brasil, entregará em breve ao público uma edição desse texto fundador, esgotado inclusive na França, em homenagem às seis décadas de aventura intelectual do pensador da complexidade, do cotidiano, do presente e do imaginário.
Em Porto Alegre, Edgar Morin abordará um tema crucial: '1968-2008: o Mundo que Eu Vi e Vivi'. Quarenta anos depois do mês de maio em que os estudantes franceses mudaram para sempre o mundo com uma revolução comportamental, Morin fará um balanço das transformações culturais que afetaram o planeta nas últimas décadas do século XX e resultaram neste novo século sem as velhas utopias, mas com novos sonhos. Edgar Morin fez a sua estréia no mundo dos adultos e dos atores sociais como resistente na luta contra o invasor nazista, que ocupou a França durante a Segunda Guerra Mundial. Essa experiência marcou para sempre a sua vida. Nunca se afastou do princípio número 1: liberdade antes e acima de tudo. Foi por isso que esteve entre os primeiros a romper com o Partido Comunista Francês, antes mesmo do famoso congresso do partido comunista na União Soviética, de 1956, em que Kruschev revelou os crimes do stalinismo.
Edgar Morin publicou mais de 40 livros, entre os quais os seis volumes da sua obra-prima, 'O Método'. Eu traduzi para o Brasil quatro desses seis tomos. Entrei na engrenagem complexa para compreender o cerne de um pensamento em luta contra as simplificações e os preconceitos. Não havia como sair dessa aventura incólume. Ao longo da sua trajetória intelectual, Morin pensou a cultura de massa ('Cultura de Massa no Século XX', 'O Cinema e o Homem Imaginário', 'As Estrelas'), a natureza humana ('O Paradigma Perdido', 'O Homem e a Morte'), uma reforma da educação ('Cabeça Bem Feita', 'Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro'), uma reforma do pensamento ('Ciência com Consciência', 'Introdução ao Pensamento Complexo', 'A Complexidade Humana'), a política ('Política de Civilização', 'Introdução a uma Política do Homem'), o século XX ('Para Sair do Século XX', 'Da Natureza da URSS', 'Pensar a Europa' e 'Maio de 68, a Brecha', este com Cornelius Castoriadis e Claude Lefort). A lista é interminável.
Pensou também, nos citados seis volumes de 'O Método', onde nos situamos (a natureza da natureza), de que somos feitos (a vida da vida), o que podemos saber (o conhecimento do conhecimento), como pensamos (as idéias), o que podemos esperar (a humanidade da humanidade) e quais os nossos limites, obrigações e deveres (a ética). Mas pensou também a si mesmo, universalizando sua experiência particular, em 'Autocrítica', 'Diário da Califórnia', 'Chorar, Amar, Rir, Compreender', 'Vidal e os Seus', 'Amor, Poesia e Sabedoria', 'Meus Demônios' e 'Diário da China'. Isso para citar apenas alguns dos seus tantos títulos. Doutor Honoris Causa de muitas universidades do mundo inteiro, inclusive da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Morin é uma sumidade intelectual que sempre teve a coragem de andar na contramão. Rompeu com todos os 'ismos'. Largou cedo o marxismo, nunca aderiu ao existencialismo, não se entusiasmou com o estruturalismo, não cedeu ao maoísmo, enfrentou todo e qualquer modismo, resistiu ao imperialismo das teorias dominantes por algum tempo.
As conseqüências de um tal gosto pela liberdade e pela autonomia não poderiam ser diferentes: foi banido das universidades onde reinavam o marxismo ou os 'filosofismos' reducionistas travestidos de grande filosofia. Em outras palavras, Morin sempre foi um franco-atirador, um delicioso maldito, um serial killer fulminando as baboseiras de cada tempo, as leis históricas, a dialética que levaria o proletariado ao paraíso terrestre, a objetividade científica perfeita, o homem como marionete das estruturas, a superação do imaginário, com seus mitos, religiões e crenças, por uma esfera racional absoluta, etc. Talvez por isso a obra máxima de Edgar Morin esteja publicada no Brasil, com ajuda deste humilde professor, pela pequena, brava e quase ignorada pela mídia editora Sulina de Porto Alegre.
Uma trajetória original, porém, não se faz por um caminho convencional. Cada aventura tem o seu preço. Morin, cuja segunda esposa faleceu em março último, prossegue a sua busca pela humanidade do homem cada vez mais convencido de que sem poesia e sem amor nada se justifica positivamente. Parece somente um clichê. A sabedoria, às vezes, consiste justamente em abraçar a pista comum para tentar arrancar o véu das aparências. O século XX foi um laboratório da modernidade. Tudo se experimentou. Na maior parte do tempo, contudo, tudo se tentou com base na arrogância predominante. Ciência, arte e religião travaram um combate com as mesmas armas: a certeza de ter certeza e a tentação da verdade única. É isso que o pensamento complexo de Morin recusa. Isso também é o que mais incomoda no seu pensamento.

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