Editora Sulina
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Diário muito particular da China

11/04/2008

Na complexa e diversificada obra de Edgar Morin, um livro se destaca pelo percurso curioso: 'Diário da China'. Resultado da primeira viagem do autor ao maior país comunista do mundo, em 1992, nunca foi publicado na França. Teve uma edição chinesa. Ao final de 2007, a editora Sulina resolveu publicá-lo no Brasil. Morin aceitou fazer um prefácio para a edição brasileira. Aproveitou para fazer balanço dessa experiência que deixou rastros na sua vida: 'Não conhecia a China, mas o que aprendi sobre a cultura chinesa tradicional indicava que havia parentesco entre o Tao e o pensamento complexo', diz. Não se trata de auto-elogio, mas de confissão de abertura ao imaginário milenar das grandes civilizações.
Neste ano em que muitos brasileiros irão à China pelas Olimpíadas, especialmente jornalistas, o 'Diário da China' de Edgar Morin precisa ser livro de cabeceira. Não um desses guias apressados e pitorescos, mas uma interpretação refletida das diferenças culturais a partir dos elementos cotidianos que chamam a atenção de qualquer pessoa. Já naquela época, mais de 15 anos atrás, Morin observou: 'Nos tempos do maoísmo, penso, as comunas rurais eram mostradas a grandes políticos e intelectuais ocidentais extasiados, que se empenhavam em exaltar os fantásticos ‘saltos para a frente' da produção econômica. Hoje, fala-se de modo mais contido de progressos da produção, exalta-se o enriquecimento e, talvez, o dirigente que glorificava o proletário agora glorifique o milionário'. Tudo passa.
Um diário funciona como universalização de particular muito rico. A China, visitada por legiões de estrangeiros, continua sendo mistério para nós. Consegue, de certa forma, esconder seu enigma mostrando-o cada vez mais a todos. Em 2008, será devassada pelo olhar curioso do mundo inteiro. Mesmo assim, considerando-se seu perfil, o essencial permanecerá velado. A pergunta que se fez Morin quando da visita ao 'planeta' China continua válida: 'Afinal de contas, o que é esta economia socialista de mercado?'. A resposta pode estar no pragmatismo (ou no fatalismo?) desconcertante da anedota na qual um chinês se livra de um questionamento semelhante com indiferença pelas etiquetas: 'Se o que fazemos pode ser chamado de socialismo, eu amo o socialismo. Se você insiste em chamá-lo de capitalismo, eu amo o capitalismo'.

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