Editora Sulina
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Morin enfrenta o cotidiano

12/04/2008

Cultura apresenta as resenhas dos dois mais recentes livros do filósofo Edgar Morin, lançados agora no Brasil: "Diário da China" e "O Mundo Moderno e a Questão Judaica" . O francês é o convidado da abertura do Fronteiras do Pensamento

(GABRIEL BRUST)

A China que vemos hoje nos noticiários, a China do enorme crescimento econômico, da esquizofrenia política, da repressão contra o Tibet e da nova "revolução de costumes" para receber as Olimpíadas 2008, essa China que parece tão atual foi inteiramente descrita por Edgar Morin em 1992.

Entre os dias 30 de agosto e 13 de setembro daquele ano, o pensador liderou uma delegação francesa em visita ao país oriental. O diário mantido por ele naqueles poucos dias viraram somente agora Diário da China (Sulina, 92 páginas, R$ 26), livro publicado no Brasil antes que na França. A viagem foi a convite de uma instituição de nome tão bizarro quanto tantos outros costumes chineses, a Associação Chinesa para Compreensão Internacional, um órgão do governo que não faz outra coisa senão promover a imagem da nova China ao mundo. De saída, Morin antecipa que seus conhecimentos do gigantesco país eram rarefeitos, não passavam de algumas leituras da narrativa popular chinesa do século 14, como À Beira DÁgua, de Shuihuzhuan. "O que depreendi de sua leitura foi que eles, os chineses, são como nós e, ao mesmo tempo, diferentes de nós", explica Morin.

Na medida em que os dias vão passando, Morin tenta conhecer o país que há além dos encontros oficiais com autoridades que, diariamente, estão agendados. Na maior parte deles, burocratas do partido tentam vender a imagem da nova China de mercado. Diante dela, Morin, especula: "A nova idéia de que o mercado constitui a lei central não destruirá, num futuro próximo, o próprio poder que as criou?".

As respostas de seus interlocutores chineses mostram que a lógica de contraposição socialismo X capitalismo feita no Ocidente não é tão óbvia para os orientais. O senhor Zhu, vice-presidente do departamento de relações internacionais do Partido Comunista, dá a sua definição sobre o que é o socialismo em duas partes: "Primeiro, a propriedade comum coletiva permanece o fator dominante. Segundo, uma sociedade altamente democrática e civilizada." Contraditório? Bem, o senhor Zhu resume: "Há cinco milênios os chineses sempre seguiram o caminho que lhes é próprio."

O trecho de um artigo na revista nacional distribuída pelo governo surpreende ainda mais Morin. Diz a publicação: "Não se deve essencialmente distinguir o socialismo e o capitalismo pela quantidade de planificação ou pelo número de mercados. A economia planificada não é idêntica ao socialismo porque o capitalismo também possui planificação. A natureza do socialismo reside na liberação e no desenvolvimento das forças produtivas, na eliminação da exploração e da polarização entre ricos e pobres e na realização final de uma prosperidade comum, de caráter coletivo".

É assim, com perplexidade diante de diálogos estranhos - apesar da companhia permanente da excelente tradutora Madame Z - que Morin desbrava a China, não se restringindo à formalidade da discussão política. Seus comentários vão da vestimenta dos locais às experiências gastronômicas e permitem conhecer um Morin informal, não acadêmico, poucas vezes visto, mas que, apesar da descontração, fez a viagem por um bom motivo: sua obsessão pelo conhecimento transdisciplinar. "Decido escrever um diário quando tenho a sensação de que vou viver uma experiência importante. (...) Eu não conhecia a China, mas o que aprendi sobre a cultura chinesa tradicional me indicava que havia algum parentesco entre Tao e o pensamento complexo", explica o pensador.

(CARLOS ANDRÉ MOREIRA)

Já no prefácio de O Mundo Moderno e a Questão Judaica, Edgar Morin define o livro como reação a um episódio kafkiano de incompreensão e paranóia vivido por ele após a publicação de um artigo em 2002, no jornal Le Monde. Assinado por Morin e outros dois intelectuais, o texto, emblematicamente chamado de Israel-Palestine: le cancer, discutia a situação do conflito em uma das regiões mais conflagradas do planeta. O que levou Morin, um conhecido apóstolo da tolerância à complexidade, e também judeu, a ser processado por uma associação judaica francesa sob acusações de "anti-semitismo e apologia ao terrorismo".

A repercussão - e as várias manifestações de solidariedade e de ódio recebidas durante o desenrolar da ação, que só foi decidida em 2006, levaram Morin a voltar a artigos que já havia escrito anteriormente sobre a questão judaica e sistematizá-los no ensaio em três partes que ocupa o centro do volume lançado este ano pela Bertrand Brasil (208 páginas R$ 35).

Morin traça um percurso intelectual que analisa os atuais paradoxos da questão judaica, de povo rejeitado e perseguido a potência militar ocupante de territórios nos quais também vivem os palestinos. Nesse trajeto, Morin abarca a história dos sentimentos de anti-semitismo e antijudaísmo - não são a mesma coisa, ele ressalta. Antijudaísmo é o sentimento, presente em boa parte da história cristã, de antipatia pela religião judaica (muitas vezes associada a acusações de deicídio). Anti-semitismo torna-se uma fase seguinte na história da cultura ocidental, quando, com o advento de nações modernas laicizadas, passa-se da hostilidade à fé para a hostilidade à etnia. Ironicamente, nos países árabes, também de ascendência semítica, o antijudaísmo vai ser recuperado à medida em que as tensões com Israel envenenam a relação entre os dois povos.

A tese central de Morin em O Mundo Moderno e a Questão Judaica é que a noção moderna de judaísmo, e que engloba Israel como força política e a religião como força de Estado, nasceu de uma rejeição ocidental. Para Morin, ironicamente, a idéia do que é judeu hoje foi, em grande parte, inventada e em certo sentido provocada pelos anti-semitas. Depois de séculos de convivência nas cidades européias, de alguma forma uma boa parte dos judeus se considerava assimilada e participante das comunidades em que residia.

O autor vai mais longe, e usa ao longo do livro o termo "judeo-gentio", numa referência aos judeus não-praticantes da religião judaica e enfatizando que a participação dos de ascendência judaica na cultura ocidental operou uma gradual fusão entre ambas as noções, "judeu" e "gentio", por mais que ambas parecessem não independentes como opostas. Essa aproximação aos poucos foi transgredindo o caráter fechado e exclusivista da condição judaica e ao mesmo tempo provocou transformações decisivas na própria cultura do ocidente gentio, embora não se possa falar de assimilação pacífica, já que a desconfiança mútua permaneceu. Essa ilusão de integração aparente, entretanto, foi abruptamente destruída com a experiência do holocausto da II Guerra Mundial.

"O extermínio nazista opera uma separação absoluta entre judeus e gentios. Alguns só então descobriram o componente judaico adormecido de sua identidade. Pertenço a um grupo de judeus que existe somente a partir do holocausto. Nós nos tornamos judeus assim, afirma o escritor húngaro Imre Kertész." - escreve Morin, dando força a sua argumentação.

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