Editora Sulina
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Acompanhante de pensador

14/04/2008

Passei o final de semana em Paris. Fui na quinta e embarquei de volta no domingo à noite. Escrevi a frase dessa maneira só para bancar o afetado, no melhor estilo folhas verdes e tomates secos. Eu poderia continuar assim: foi tudo tão rápido que mal tive tempo de comer um confit de canard, beber um bom Pomerol e ver alguns amigos. Esse estilo faz muito sucesso com os nascidos em berço esplêndido. Eu sou de Palomas. Prova disso é que nunca sei a ordem correta: tomates secos e folhas verdes ou folhas verdes e tomates secos? A verdade é que encarei uma viagem extremamente rápida para 'faire le service de presse' (autografar exemplares a serem enviados para jornalistas) do meu livro 'Les Technologies de L’Imaginaire', recém-lançado pela editora La Table Ronde. O segundo objetivo da viagem deu continuidade a uma nova fase na minha carreira tentacular de faz-tudo: acompanhante de pensador. Voltei com Edgar Morin.
Edgar fará 87 anos em julho deste ano. Perdeu a mulher faz pouco. A energia que o domina é colossal. Eu já conheci muitos pensadores. Jean-François Lyotard, um dos pais da pós-modernidade, impressionava-me pela inteligência aguda que se expressava com leveza. Conversar com ele era uma maravilha. A gente se sentia muito inteligente mesmo dizendo banalidades. Ele possuía a capacidade extraordinária de acrescentar qualidade ao trivial alheio. Jean Baudrillard era a ironia encarnada. O historiador François Furet parecia uma enciclopédia ambulante da Revolução Francesa e da análise do totalitarismo sem jamais demonstrar arrogância. Michel Maffesoli é um monstro em etimologia e em novas e desconcertantes hipóteses sobre fenômenos que insistem em escapar sob o nariz de todo mundo. Ao contrário do que muitos acreditam hoje, pensadores não são chatos. Divertem e divertem-se virando tudo do avesso. Chatos são os que se imaginam pensadores sem ter pensado bem.
Entre todos os pensadores, intelectuais e escritores que conheci, nessa atividade de agitador cultural por falta de talento para o futebol e de coragem para o tráfico de armas na África (brincadeirinha para lembrar Rimbaud), Edgar Morin é o mais tentacular. Hoje à noite, na abertura do Fronteiras do Pensamento 2008, ele certamente revelará um pouco dessa sua faceta ao tratar do tema '1968-2008: o Mundo que Eu Vi e Vivi'. Não é clichê chamá-lo de enciclopedista. Além de ser um iluminista, no sentido de crer nos benefícios da razão, ele consegue ter conhecimentos profundos de ciências humanas e também de física, biologia, astronomia e, claro, literatura. Só que isso não o impede de praticar uma abertura espontânea ao não-racional. Se lhe enviam uma dessas correntes, que é preciso continuar repassando, ele não consegue deixar de entrar no jogo. Há um lado quase messiânico em Morin. Ele crê nos imaginários.
Quer dizer, acredita que a riqueza da humanidade é justamente esta contraditória convivência do racional com o não-racional, do místico com o saber científico, da religião com a matemática, da poesia com o saber utilitário. A riqueza da humanidade está na diferença e na diversidade. Jamais na padronização. Penso em convidar Morin para dentro de 13 anos, quando ele estiver festejando seu centenário, estrearmos como traficantes na África. Armados até os dentes. Traficantes de poesia.

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