Editora Sulina
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O pessimismo otimista de Edgar Morin

16/04/2008

Aos 86 anos, o intelectual francês Edgar Morin mobilizou uma platéia de 1,7 mil pessoas na noite da última segunda-feira (14/04), no Salão de Atos da Ufrgs, com apenas umas folinhas de papel nas mãos. Na abertura da segunda edição do ciclo de altos estudos Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem, Morin passeou pelas ciências naturais, pela biologia molecular, pela sociologia, pela economia, pela política e pela ecologia para chegar à conclusão de que um novo modo de vida é necessário para salvar o planeta. “Não será nosso destino a autodestruição, para que um outro mundo possa nascer?”, questionou.


A vitalidade impressionante de Morin garantiu uma conferência histórica, em que pese a tradução defeituosa e o excesso de apresentações – o desfile de políticos ao microfone acabou irritando a assistência que lotou o Salão de Atos. Mas Morin é Morin: com gestos largos, uma voz firme e sua conhecida eloqüência, conseguiu manter a platéia sempre acesa. Foi aplaudido longamente ao final da exposição e, depois, a cada resposta em relação às poucas perguntas que puderam lhe ser dirigidas.


A tese de Morin não é nova nem original, mas os argumentos usados por ele fazem dela uma idéia imbatível. É certo que a civilização atual vive uma crise profunda, embalada pelo mito do progresso como um fim em si mesmo explorado à exaustão pela sociedade industrial. “O progresso não é uma obrigação histórica e seus motores são ambivalentes”, argumentou, para reforçar a sensação de que desenvolvimento também gera exclusão, pobreza, destruição. Basta lembrar, para isso, a ciência e as guerras. Com o mito do progresso inevitável, esvai-se a idéia clássica de futuro e, conseqüentemente, a “aventura da humanidade”.


Sem evitar o tom apocalíptico, o intelectual francês disse o que todo mundo sabe (mas não tem muito interesse em reconhecer): o sistema Terra não consegue mais controlar suas contradições e seus problemas. “Eu de fato tenho medo da nossa desintegração”, justificou Morin, para emendar: “As probabilidades são extremamente ruins, mas o improvável também pode acontecer e nos salvar”, disse ele. “A filosofia não nasceu apenas 50 anos depois de Atenas ser destruída pelos persas?”


No final, Morin citou o poeta norte-americano T.S.Eliot (“Em meu princípio está meu fim”) e o filósofo alemão Martin Heidegger (“A origem não está atrás de nós, mas à nossa frente”) para ilustrar sua fé no futuro. “Eu não perdi a esperança, eu sempre confiei no improvável”, anunciou o filósofo. “A esperança nunca nos dá certeza, é verdade, mas é preciso mostrar aos outros a grandeza do nosso destino.” Os aplausos soaram como uma espécie de cumplicidade arrependida.

Link: http://www.aplauso.com.br/site/portal/detalhe_notas.asp?campo=1056&secao_id=17