Editora Sulina
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Indicações para a feira

10/11/2008

Alfredo Fedrizzi, diretor da agência Escala, é um publicitário que admiro e encontro em quase todos os grandes eventos culturais de Porto Alegre. Está por toda parte. Tem muito bom gosto. É incrível como certas personalidades da cultura gaúcha jamais são vistas numa palestra ou num teatro! Fedrizzi enviou-me um e-mail dizendo que não posso me encolher e devo publicar uma lista de recomendações de livros a serem comprados na Feira. Farei isso. Na verdade, hesitei. Não queria prejudicar os indicados. Meu poder de fazer vender livros, meus e de outros, é inversamente proporcional à minha admiração por certos autores. É batata! Quanto mais eu os admiro, menos eles vendem. Claro que exagero, pois alguns dos nomes que recomendarei já são best-sellers. Apesar, evidentemente, do meu perigoso e inútil apreço.
Vamos lá: o que eu recomendo comprar na Feira? Tudo do Michel Houellebecq: 'Partículas Elementares e Extensão do Domínio da Luta' (Sulina), 'Plataforma e a Possibilidade de uma Ilha' (Record). Digo isso todo ano. Houellebecq é o melhor escritor mundial da atualidade. A sua virtude principal é a ironia cínica. Nessa mesma linha, embora com um pouco mais de vitalismo otimista, indico tudo do cubano Pedro Juan Gutiérrez, especialmente a 'Trilogia Suja de Havana' (Alfaguara). Pedro Juan é um doce maldito cujos belos livros não são publicados em Cuba por conterem excesso de realidade. O Rio Grande do Sul também tem os seus malditos deliciosos, mesmo que eles não se vejam assim, que eu saiba. O mais interessante nessa categoria é João Gilberto Noll, cujo 'Acenos e Afagos' (Record) é imperdível. Para quem gosta de histórias de aventuras radicais, reais ou quase, os livros de Aírton Ortiz, 'Cartas do Everest', e de Assis Aymone, 'O Cume e Depois Morrer' (ambos da Record) são uma boa pedida.
O Rio Grande do Sul tem bom escritores. Moacyr Scliar e Luiz Antônio de Assis Brasil estão aí para não me deixar mentir. Eu tenho grande admiração por Sérgio Faraco, que está na Praça com dois relançamentos, 'Noite de Matar um Homem' e 'Doce Paraíso', e uma novidade, 'O Pão e a Esfinge', seguido de 'Quintana e Eu' (todos da L&PM). Faraco tem algo de maldito. Escreve forte, com densidade, sem concessões. Acho que vive assim também. Alguns dos seus contos de fronteira conseguem usar intensamente a linguagem do gaúcho sem que os críticos o chamem de regionalista. Que me desculpem os outros, antes de tudo os amigos, mas Noll e Faraco são os melhores escritores gaúchos atualmente. Um pouco mais de ironia, de cinismo e de provocação e eles entrariam para o seleto clube de Michel Houellebecq, o clube de malditos bem-sucedidos.
Noutro campo, onde não há espaço para a maldição, recomendo 'O Silêncio dos Amantes' (Record), de Lya Luft. Por fim, somente para acirrar o ódio dos que me detestam, pois eles existem e fazem questão que eu saiba disso, recomendo cabotinamente aquele que, se não fosse assinado por mim, seria o livro mais comentado do ano, não da década, talvez mesmo deste século (são apenas oito anos até agora), meu romance 'Solo' (Record). É a história de um publicitário em crise existencial. Meu livro é tão radicalmente maldito que os poucos críticos que o leram não arranharam um por cento da sua complexidade. Até agora, somente três meninas, de 18, 19 e 21 anos de idade, e uma senhora de 96 anos conseguiram desvendá-lo.
(Coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo / Porto Alegre / RS)

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