Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

Ronan, o bárbaro

09/04/2009

Outro dia, num final de tarde, fui tomar uma taça de vinho, no Margs, com Ronan Prigent, adido cultural da França em Porto Alegre. O Ano da França no Brasil vai começar oficialmente em 21 de abril. Ronan, parafraseando Barack Obama ao falar de Luiz Inácio, é o cara, o cara do ano da França em Porto Alegre. Sem contar que é um cara especial: já foi jogador de futebol, pintor, capaz de conseguir vender seus quadros para comer, e professor de ensino médio e universitário, formado na prestigiosa Escola Normal Superior de Paris, por onde passou gente simples como Jean-Paul Sartre. Hoje, aos 40 anos de idade, é músico, tem uma banda chamada Molypop, ficcionista, poeta e diplomata, tendo sido cônsul honorário em Veneza. Abandonou a pintura por uma razão absolutamente particular: a mulher não gostava da sua obra. Mas adora os seus livros. São 20 publicados e vem mais aí. A Sulina lançará ainda neste ano a tradução do seu desconcertante e muito original 'Corbière'.
Ronan é uma figura. Uma bela figura. Aprendeu português vendo televisão, passou alguns anos em São Paulo, como adido cultural, e, finalmente, desembarcou de mala e cuia em Porto Alegre, onde não se importaria de ficar. O cara gosta do Brasil. É por isso que comecei a falar dele aqui. Ronan é um erudito – daqueles que encontram um termo em grego ou latim para qualquer observação de um mortal comentando futebol ou arte – tem muito senso de humor, vive mergulhado nos clássicos (ama Montaigne, Balzac e Rimbaud) e adora o Brasil. É isso.
Tem uma tese sobre o Brasil que faria Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e o nosso Décio Freitas refletirem com gosto: a redenção da melancolia. Ronan pode falar durante horas sobre essa sua maneira de interpretar a brasilidade. Teríamos uma competência especial para escapar à depressão, convertendo nossa inclinação melancólica em matéria de criatividade, por exemplo, musical ou numa doce e vitalista descontração capaz de nos salvar do tédio, do desespero gerado pela pobreza ou da falta de perspectiva. Trituramos a melancolia. Não se trata da velha tese sobre uma essência lusitana feita de uma tendência inexplicável para a alegria, mas de uma construção cultural, um imaginário. Ronan é sofisticado demais, vanguardista, autor experimental, leitor voraz de filosofia, para cair numa antiga armadilha. Esse fã de Vinícius e Tom Jobim, por meio do elogio à redenção da melancolia, declara o seu amor pelo nosso jeito meio estranho e sensual de ser.
Ronan Prigent, que exercita suas artes sob o pseudônimo de Emmanuel Tugny, é um dos articuladores da vinda ao Margs da exposição 'Um Século de Arte na França 1860-1960', que trará 110 obras de grandes nomes da pintura a Porto Alegre, entre os quais Delacroix, Manet, Van Gogh, Degas, Monet, Cézanne, Renoir, Toulouse-Lautrec, Maurice Utrillo, Bonnard, Vuillard, Picasso, Matisse, Léger, Balthus, Francis Gruber, Hélion, Fautrier, Pierre Klossowski, Hans Bellmer, Victor Brauner, Max Ernst, Miró, Yves Tanguy, Dalí, Dubuffet, Martial Raysse, Arman, Nicki de Saint-Phalles, Lourdes Castro, Alain Jacquet, Jacques Monory, Duchamp e Giacometti. Um cara que ajuda a trazer tudo isso a Porto Alegre é o cara, um melancólico redentor que está investindo também numa coletânea de novos autores franceses até agora desconhecidos no Brasil. Foi um bela conversa com um bom copo de vinho. Na próxima, a garrafa.
(Coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo / Porto Alegre / RS)

Link: www.correiodopovo.com.br