Editora Sulina
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    Sua sacola está vazia.

A decadência gaúcha

13/04/2009

Luis Gomes, editor da Sulina, me ligou outro dia com uma exclamação: que falta faz o Décio Freitas! É verdade. Décio tinha sempre uma teoria no bolso para as despesas de conversação. Uma das suas teses favoritas era sobre a decadência do Rio Grande do Sul. Tinha razão. Só piorou. Luis Gomes pensou nisso quando leu um post de uma menina linda no seu blog: O Grêmio é o meu único amor. Que idiotice! Se fosse o Inter, a idiotice seria a mesma. Ter um clube de futebol como único amor só pode ser um exagero retórico, um problema de lesão cerebral grave ou o recibo de uma existência fracassada. Salvo se for o sintoma de uma crise social, econômica e cultural.
No século XIX, o Rio Grande do Sul orgulhava-se dos seus guerreiros. No século XX, vibrou com os seus escritores, compositores populares, políticos e militares. Já fomos o celeiro do Brasil. Tivemos Bento Gonçalves, Neto, Getúlio Vargas, Erico Verissimo, Elis Regina, Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues. Nenhum mito é perfeito. Alguns viram ditadores, outros se encolhem na hora da verdade. Feitas as contas, porém, deram-nos bons motivos para algum ufanismo. Depois, sempre há um depois, vieram os tempos duros e contribuímos para o milagre brasileiro com uma fileira de ditadores de fato e alguns juristas dispostos a legitimar o regime. Poderíamos até fazer uma pesquisa interativa: quem foi o pior ditador que já demos ao Brasil? E o melhor? E dizer que já tivemos a mais importante editora do país, a Globo. E que já mandamos na Nação. Que já amarramos nossos cavalos num obelisco no Rio de Janeiro.
Hoje, nossas glórias se resumem a emplacar alguém no BBB. Temos bons escritores. Nenhum genial. Nada de anormal. O Brasil também está assim. Temos bons compositores populares. Nenhum Lupicínio. A região Centro-Oeste nos desafia abertamente em produção agropecuária. Só nos resta o futebol. Grêmio e Inter representam o que nos sobrou de grandeza. É verdade que os clubes de futebol podem contar com jogadores vindos de fora. Boa parte dos últimos craques colorados veio de longe. Pato e Nilmar nasceram no Paraná. D’Alessandro e Guiñazu são, vejam o escândalo, argentinos. Ainda bem que Taison é pelotense. Só não estamos completamente nas mãos dos clubes de futebol para ainda termos uma boa autoestima graças às mulheres. Temos nossa Gisele Bündchen.
Ela é maravilhosa. E não é a única. Em cada supermercado de Porto Alegre, encontramos pelos menos três caixas mais lindas do que ela. Eu sempre me deslumbrei com aquela cara de caixa de supermercado da Gisele. É a nossa última marca de superioridade. Sim, nós temos mulheres para exportação. Não temos literatura, música, heróis, mitos. Não importa. Isso tudo é coisa do tempo da modernidade. Mudamos de era, de paradigma, de visão de mundo. Agora, felizmente, só o futebol, o BBB e as top models nos dão orgulho. Bem pensado, retiro o que disse no começo deste texto e faço também a minha declaração: Inter, meu único amor. Junto com as caixas de supermercado, as top-models e os nossos representantes no BBB. Ah, temos também um gaúcho no CQC. A decadência gaúcha não tem volta. Nem o Décio. Só nos resta investir no futebol. O irrelevante tornou-se essencial. O Dunga é nosso. O Ronaldinho traiu o Grêmio. Mas é nosso. É melhor exportar a Gisele que o Médici e o Geisel. Não acham?
(Coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo / Porto Alegre / RS)

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