Editora Sulina
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Livro de cinema

23/04/2009

Eu gosto muito de cinema. Mas não chego a acreditar que apareça um filme genial por ano. Desconfio do entusiasmo dos especialistas que escrevem para jornais, especialmente os de São Paulo e Rio de Janeiro. Eles são muito provincianos e bairristas. Acham que o Rio é o centro do mundo e que São Paulo é cosmopolita. Há muito eu andava em busca de um bom livro que, em linguagem de gente e sem teses cinematográficas hollywoodianas, organizasse e explicasse um pouco o universo das telas grandes e pequenas. Já andava meio cansado de procurar. Normalmente, os livros sobre cinema se dividem em três tipos: os manuais, úteis apenas para quem deseja fazer cinema, gente, de resto, que dispensa manuais; os delírios filosóficos, que fazem do cinema a única arte contemporânea capaz de captar a realidade, desde que alguém saiba o que é, de fato, a realidade; e os volumes históricos. Confesso que esses três formatos só conseguem me fazer ir ao cinema. Para não ter de ler os livros.
Enfim, claro que os leio, mas fico entediado. O tédio é o meu grande problema e a minha grande qualidade. Para me livrar dele, leio desesperadamente. Outra semana, fiquei tão entediado que reli em quatro dias 'Servidão Humana' e 'Contraponto'. Esse tipo de leitura me salva do tédio, mas me deixa em surto. Fico indignado. Por que ninguém mais escreve com tanta inteligência? Os personagens dos livros de hoje são quase todos burros. Não pensam, não ironizam, não travam combates de ideias, nem para cantar uma mulher capricham no intelecto. A cartilha do escritor atual obriga a construir personagens idiotas. Talvez seja uma influência do cinema. Afinal, Hollywood não tolera personagens muito complexos. Acham que estou fugindo do assunto? O assunto é falar de arte.
Pois não é que meu amigo Gilles Lipovetsky, junto com Jean Serroy, resolveu aventurar-se no campo da interpretação do universo do cinema! Mais do que isso, os dois publicaram um livro, 'A Tela Global, Mídias Culturais e Cinema na Era Hipermoderna' (traduzido para o Brasil pela Sulina), que é uma obra-prima. Consegue se encaixar perfeitamente nas seis badaladas propostas de Ítalo Calvino para um texto do nosso milênio: tem leveza, rapidez, precisão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Admito que me irrita ter de dizer isso. Falar bem de um livro é quase sempre muito chato. Fica com ar de material de divulgação. Detonar é muito mais divertido. Permite frases assassinas, tiradas de espírito, efeitos de inteligência, falsas demonstrações de força. Elogiar entedia. Deve ser por isso que a revista Veja detona quase todo mundo, exceto os autores da casa. Lipovetsky vive muito bem sem os meus elogios.
Todo mundo vive bem sem os meus elogios. Exceto eu. Agora, falando muito sério, o poder de síntese de Lipovetsky é extraordinário. Ele tem um talento fantástico para captar os paradoxos de uma época. Ao mesmo, recorre a termos que enfeixam esses paradoxos conciliando inconciliáveis com agilidade e exatidão. Um exemplo é o conceito de 'simplex', utilizado para caracterizar um cinema de massa que deve ser estruturalmente simples, mas capaz de passar uma ideia maior de complexidade de imaginário ou de conteúdo. Somos práticos: queremos simplesmente que o complexo seja fácil, sem deixar, porém, de parecer vertiginosamente e simplesmente múltiplo e inteligente. Tudo é tela. Global.
(Coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo / Porto Alegre / RS)

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