Vive la France!
09/07/2006
Há quem jure que eu não gosto de coisa alguma nem de ninguém. Que calúnia! Para começo de conversa eu sou nacionalmente bígamo. Amo o Brasil e a França. Depois, adoro as suítes para cello de J. S. Bach, com Pablo Casals, que ouço enquanto escrevo este texto. Por fim, sou fanático pelo Internacional. Não bastasse tudo isso, sou um admirador confesso do pensador francês Edgar Morin. Nem vou falar de mulheres para não apanhar em casa. Tem, por exemplo, a Ana Paula, que estará conosco nos próximos meses. Sabem de quem estou falando, não? Ana Paula Arósio, protagonista da próxima novela das oito, 'Páginas da vida'.

Mas esta crônica é sobre Edgar Morin. Meu mestre de complexidade está completando, neste 8 de julho, 85 anos. imaginem só, 85 anos e mais em forma do que o Cafu, o Roberto Carlos e o gordo Ronaldo! Até parece o Zidane. Morin lutou na resistência francesa contra os nazistas. Muito cedo chutou o Partido Comunista Francês em nome da liberdade. Tem mais de 40 livros publicados. Dediquei alguns dias da minha vida à sua obra. Traduzi quatro dos seis volumes da sua obra-prima, 'O método', todos publicados pela Sulina. O título até pode assustar, mas é bom ninguém se precipitar. Trata-se de uma reflexão profunda e rica sobre a vida, a natureza, o saber, a identidade, a humanidade e a ética. Qualquer um pode ler e entender. Claro que alguma dificuldade se encontra no começo. Em seguida, tudo vai se tornando claro e excitante. Vivi, durante a tradução, alguns dos meus melhores anos. Aprendi muito a aprender.

Conheci pessoalmente Edgar Morin num 1º de maio, em 1991. Fui entrevistá-lo no seu apartamento em Paris. Foi amor à primeira vista. Ele queria saber o final de Dona Beja, em exibição na televisão francesa. Estava apaixonado por Maitê Proença. Eu não sabia. Não tinha visto a novela. Ele achava que eu estava escondendo o jogo. Nos anos seguintes, planejamos várias vezes seqüestrar Maitê e levá-la para um cativeiro parisiense. Talvez no Ritz. Desistimos do plano quando ela aceitou almoçar com Morin no Rio de Janeiro. Quando voltei ao Brasil, usei a história da paixão de Morin para atrair jornalistas. Sempre que precisava divulgar uma conferência dele entre nós e esbarrava no desinteresse da mídia por complexidade, contava essa historinha. Nunca falhou. Interessante é que Edgar Morin foi um dos primeiros a estudar os fenômenos da cultura de massa sem nunca falar em alienação ou manipulação. Quando defendi minha tese de doutorado em Sociologia, na Sorbonne, sob orientação de Michel Maffesoli, tive Edgar Morin como um dos membros da banca. A sua primeira frase me fez quase desaparecer na imensa sala dourada onde, entre outros, Michel Foucault e Jean-Baudrillard defen-deram teses, cujos quadros de gente como Racine e Descartes formam quadrados mágicos infernais e que sempre funcionam. Morin falou assim: 'Vou deixar a minha principal e mais arrasadora crítica para o fim'. Depois de uma análise detalhada e generosa, disparou: 'Agora vem o pior. Juremir me enganou. Ele me prometeu a Maitê Proença e até agora não fez nada'. Confesso que ressuscitei naquele instante.

Em 'As estrelas' Morin explica e compreende a nossa obsessão pelos ídolos de Hollywood. Em tempos de celebridades, não tem livro mais atual. Eu ainda não aprendi a ser tão generoso e volta e meia não acompanho as posições de Morin sobre a cultura da mídia. Infiel, me comprometo com outros mestres, Baudrillard, Maffesoli e, cada vez mais, a Guy Debord. Este foi um maluco genial. Matou-se, em 1994, talvez porque as suas idéias sobre a 'sociedade do espetáculo' se tornaram praticamente irrefutáveis. Dizia-se doutor em nada. Conhecia todos os tipos de Polícia e todas as cervejas da Europa.

Morin é dos vinhos. No Brasil, claro, nunca resiste às caipirinhas. Fizemos, certa vez, juntos uma viagem a Belém do Pará. Houlala! Estou contando anedotas, certo. Já contei tudo isso? Estou caducando. Alguém vai até dizer que estou, como se fala lá em Palomas, querendo me 'gavar' de conhecer o homem. Nada disso. É admiração mesmo. Edgar Morin tem revolucionado a maneira de conhecer ao propor uma reforma do pensamento. No México, já se criou até uma Universidade Edgar Morin. A PUCRS concedeu-lhe o título de Doutor Honoris Causa. Eu, que nem gravata uso, vesti toga para saudá-lo. Quem sabe Zidane o presenteia hoje com um bi.
(Juremir Machado da Silva - Correio do Povo - Porto Alegre)


Link: www.correiodopovo.com.br

Voltar | Versão em PDF | Indicar

 

Os dados pessoais fornecidos pelos usuários do site www.editorasulina.com.br são assegurados pela seguinte Política de Privacidade