Tramas no táxi
13/10/2006
Olhei mais uma vez para o pacote. Tive, então, a certeza de que não fora esquecimento: ela deixara o pacote no carro de propósito. Era um pacote estranho. A mulher também era estranha. Misteriosa. E linda. A mulher mais linda que já havia sentado no banco do meu táxi.

Será que algo estava se mexendo dentro do pacote? Pensei em abrir, mas aí um casal fez sinal, na esquina da Getúlio com a José de Alencar. Parei. Eles subiram. Deram o endereço. Comecei a rodar. Eles estavam no meio de uma conversa séria. Ela:

- A verdade é que tu não me procuras mais, Osvaldo.

Espiei pelo retrovisor. Uma loira bem bonita. Por que será que o Osvaldo não a procurava mais? O Osvaldo era careca. Parecia enfarado. Não respondeu. Suspirou, só. Ela prosseguiu:

- Eu fiz tudo que tu querias, Osvaldo. Tudo. Até aquela história com o sagu. Como sagu, Osvaldo! O que mais tu queres de mim, Osvaldo?

Osvaldo apertou os lábios. Abriu a boca. Ia falar, mas levantou o olhar e viu meus olhos refletidos no retrovisor. Sussurrou para a loira:

- Depois eu digo.

Não falaram mais. No resto do caminho, eu pensava naquela história do sagu e olhava para o pacote. Acho que fazia um barulho. Seria um tique-taque? Não deu tempo para verificar. Assim que o casal desceu, um bigodudo embarcou. Fiz um comentário sobre o tempo, ele nem ouviu. De mau humor, creio. Não abri mais a boca. Concentrei-me no pacote ao meu lado. Era certo: um troço se mexia dentro do pacote. Maldição! Ia abri-lo já, já!

Chegamos. O bigodudo pagou a corrida. Ia descendo, mas parou. Olhou para mim. Disse:

- Posso perguntar uma coisa?

Fiquei apreensivo. Respondi que sim. Ele, constrangido:

- O que o senhor acha de um homem de bigode?

A pergunta me desconcertou. O que poderia significar? Ele não tinha jeito de gay... Será que?.. O que eu devia responder, Cristo??? Pensei em algo. Ia dizer, ele interrompeu. Apontou para o banco do carona:

- Seu pacote está se mexendo.

Ah, não! Agora ia abrir o pacote. Tomei-o nas mãos. O bigodudo recuou, com medo do pacote. Ficou olhando a uma distância segura. Respirei fundo. Preparei-me para abrir. Uma mão surgiu pela porta aberta do carro. Uma mão pequena e macia. Ela. A dona do pacote. Tirou-o das minhas mãos. Sorriu.

- Espero que tenha aproveitado - miou ela. E levou o pacote embora, serpenteando pela calçada.


***

Sempre quis fazer isso. Escrever sobre as histórias que os taxistas vivem diariamente. Como eles devem ter aventuras para contar! Até havia listado algumas, como a do pacote, mas aí, sabe o que aconteceu? Um cara escreveu o livro antes de mim! E, o mais grave, com a autoridade de quem é realmente taxista. Mauro Castro foi "descoberto" por um passageiro ilustre, o Cyro Martins, que o levou para o Diário Gaúcho. Começou a escrever uma coluna semanal, depois um blog, virou sucesso e, agora, dia 18, lançará seu livro, o Taxitramas. Uma beleza de livro, recheado de histórias humanas e, o melhor, verdadeiras. Taxitramas. Que inveja!

(David Coimbra - ZERO HORA - Porto Alegre/RS)

Link: http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6551&template=&start=1§ion=Colunas+e+Charges&source=a1316432.xml&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=23&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=

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