Jean
07/03/2007
Estou naquela idade em que já me toca, cada vez mais, escrever crônicas de adeus a amigos mortos. Faz poucos dias, morreu o sociólogo francês Jean Duvignaud, que esteve na minha banca de tese de doutorado e que sempre me passou a impressão de viver para a cultura. Ontem, morreu outro francês, um extraordinário pensador e um magnífico escritor: Jean Baudrillard. Tive a honra de ser amigo dele. Ajudei a organizar as suas três viagens a Porto Alegre. Ainda em fevereiro deste ano, quando estive em Paris, conversei com Jean. Ele estava lúcido, mas certo de que a sua hora estava chegando. Niilista até o fim, respondeu com clareza à minha pergunta sobre o que poderia vir: 'Nada'.

Cada vez que eu ia a Paris, visitava Jean. Ele gostava do Brasil e sempre queria novidades. Traduzi dois dos seus tantos livros e 'participei' da invenção de um deles, 'Tela total', uma coletânea dos seus artigos publicados no jornal Libération que me propus a organizar. Saiu primeiro no Brasil e só depois na França. Falo disso tudo para espantar a tristeza e para render humildemente homenagem a um espírito realmente brilhante, um caçador de paradoxos e um semeador de ironias. Sempre digo que, na França, encontrei três mestres: Michel Maffesoli, mestre de tudo um pouco, principalmente de idéias novas; Edgar Morin, mestre de conteúdo e de humanismo; e Jean Baudrillard, mestre de forma, de texto, de fórmulas, de frases, de estilo.

Paris já não será para mim a mesma sem Jean. Faltará sempre uma conversa, um encontro, um vinho, um livro e uma opinião inteligente sobre a mídia, o consumo ou a vida. Continuarei a falar dele em minhas aulas, estudando infatigavelmente os seus livros desconcertantes e tentando passar aos meus alunos o melhor da sua obra. Baudrillard era um polemista, um provocador, um especialista em virar tudo do avesso. Numa das suas boas tiradas, sentenciou: 'A humanidade espera que a inteligência artificial nos salve da nossa estupidez natural'. Noutra, questionou: o que fazer depois da orgia? A orgia foi o processo de liberação geral dos anos 60. Liberação sexual, do corpo, da mulher, da política, da autoridade, da moral castradora, de tudo, enfim, que parecia limitar o desejo. O que fazer na pós-orgia? O que fazer na ressaca? O que fazer depois da morte de um mestre e de um amigo? Quem sabe, reler seus livros.

juremir@correiodopovo.com.br
Link: www.correiodopovo.com.br

Voltar | Versão em PDF | Indicar

 

Os dados pessoais fornecidos pelos usuários do site www.editorasulina.com.br são assegurados pela seguinte Política de Privacidade