Jean Baudrillard, o último minuto
10/03/2007
O filósofo francês, falecido na última terça-feira, aos 77 anos, ficou célebre por seu diagnóstico da sociedade de consumo. Polêmico, radical e marginalizado, havia mergulhado em um processo de isolamento intelectual
(ANDREI NETTO/ Paris para ZERO HORA)




Eram 18 horas, 30 minutos e 47 segundos da noite de terça-feira, 6 de março, em Paris, quando um turbilhão de cerca de 200 mil e-mails partiu da redação do jornal Le Monde rumo às caixas de mensagens de seus assinantes. Sob o título "Dernière Minute" (Último Minuto), duas linhas de texto anunciavam: "O sociólogo e filósofo Jean Baudrillard, observador crítico da sociedade de consumo e do mundo moderno, morreu, hoje, 6 de março, em Paris, aos 77 anos".

Baudrillard morreu de câncer, mas a doença foi divulgada por seu eufemismo corrente em todos os jornais e emissoras de televisão francesas: "vítima de longa enfermidade". É possível que a notícia de sua morte fosse interpretada por Baudrillard como mais um sintoma de hiper-realidade, à medida que o pensador francês nascido em Reims, em 20 de junho de 1929, julgava a divulgação maciça de fatos atuais ou históricos pela mídia uma demonstração de descolamento entre os acontecimentos - a realidade - e a forma como essas informações acabam consumidas, dissociadas de seu sentido original.

Baudrillard construiu sua obra com meia centena de livros. Germanófilo - uma característica admirada pelos franceses -, começou a ganhar projeção intelectual ao traduzir para o francês Bertolt Brecht, Marx e Engels e Peter Weiss, ao mesmo tempo em que desenvolvia seu primeiro vôo solo. Sob orientação de Henri Lefebvre, defenderia nos anos 60 a tese O Sistema dos Objetos, transformada em livro em 1966. No ensaio, dedicava-se a denunciar o valor do novo nos objetos, que na sociedade contemporânea se dissocia de sua materialidade e funcionalidade por influência da indústria, da moda, da publicidade, dos meios de comunicação. Se essa análise hoje lhe parece familiar, agradeça a Baudrillard.

Lançavam-se, assim, as bases para sua segunda produção, A Sociedade do Consumo, de 1970, livro que o catapultaria ao rol dos grandes pensadores do pós-guerra e que permearia sua obra até a morte. Segundo Baudrillard, o consumo, elemento estrutural do Ocidente, não mais satisfaz necessidades, mas serve de diferencial social. O produto, como a relação humana, perde seu sentido, mas ganha significados artificiais, que substituem sua essência.

Baudrillard entra, então, em um processo de radicalização e de isolamento intelectual. Em Por uma Crítica da Economia Política dos Signos, de 1972, rompe seus laços com o marxismo e se afasta da Escola de Frankfurt, paradigma de então. Ruma à marginalidade, na qual se auto-exilará, ao se dissociar dos filósofos da Modernidade, caindo no que vem após, a Pós-Modernidade - conceito delineado por seu contemporâneo francês Jean-François Lyotard. Baudrillard não se esforça para compreender o mundo, não propõe metanarrativas, não compartilha do egocentrismo filosófico moderno por não acreditar que um homem, mesmo um pensador, dispõe de sabedoria para conhecer as soluções - estejam elas contidas em uma ideologia, em uma ciência ou em uma religião - para todos os problemas da humanidade. Na França, terra da Modernidade, da "Esquerda" e da "Direita", torna-se alvo das críticas. É chamado de "coveiro das ideologias", de apolítico, mesmo de reacionário pelos "pensadores de esquerda".

Nada o desvia do caminho. Baudrillard não segue o kantismo, nem o marxismo. Não se perfila atrás dos defensores do Esclarecimento, da Democracia, das liberdades. Prefere forjar sua própria leitura dos acontecimentos, falando em "sedução", "simulacros", "simulações", termos elaborados em Da Sedução (1979) e Simulacros e Simulação (1981). São esses conceitos que o auxiliarão a desvendar seu grande tema: o cotidiano, uma vertente da sociologia também explorada por Lefèbvre, Gilbert Durand, Michel Maffesoli e Edgar Morin. Preste atenção a esses termos. Eles são chave para compreender sua obra.

Simulação, diz, é a geração de modelos de um fato real, mas sem origem ou realidade. No momento em que a simulação acontece, a verdade e a racionalidade são descartadas, por não fazerem mais sentido. "A simulação parte, ao contrário da utopia, do princípio da equivalência, parte da negação do radical do signo como valor, parte do signo como reversão e aniquilamento de toda referência", escreve em Simulacros e Simulação.

As simulações geram a hiper-realidade. Para descrevê-la, Baudrillard se vale, entre outros, de um exemplo marcante: a pornografia. Em um filme pornô, o sexo é tão explícito, é visto de ângulos tão artificiais que não é mais o sexo tal como o conhecemos, real. É o sexo que só existe na TV, na Internet, não o que o praticamos. Logo, é sexo além do real - hiper-real.

Cada vez mais distante do senso comum do meio intelectual, em especial francês, Baudrillard aborda o underground e fala em prostituição, violência, sexo. Nos anos 80, talvez por falar de um cotidiano que todos vivem e reconhecem, torna-se célebre em todo o mundo. Ao mesmo tempo, acentua seu menosprezo e sua ironia, transformando-se em um franco-atirador social prestes a apertar o gatilho, com seu olho crítico colado à luneta. Sua obra muda. Nos anos 90, volta-se à análise de recortes da realidade e parece rir ao fazer política. Quando da Guerra do Kwuait, a origem do atual atoleiro norte-americano, ironiza comparando as imagens dos bombardeios - luzes verdes no céu escuro do Iraque - às de um videogame. Aquelas imagens são, para ele, a simulação de uma guerra, não uma guerra. São hiper-reais, não reais. "O real não existe mais", chega a comentar.

O sarcasmo lhe vale novos adjetivos. É acusado de ser vago e mesmo vazio de sentido. Mas quem não compartilha dos valores do mundo científico - método, hermetismo - é sempre acusado de ser "vago", "vazio de sentido" ou de faltar com o "rigor científico".

Em 11 de Setembro, Baudrillard volta à tona, gerando novas polêmicas. Em artigo no jornal Le Monde, analisa "O Espírito do Terrorismo". Por trás de cada um dos 18 terroristas que atacaram os Estados Unidos, entende, há bilhões de outros terroristas. Para Baudrillard, nós - os espectadores - desejamos os eventos de 11 de Setembro. Pela admissão dessa cumplicidade passa o caráter simbólico dos atentados. "Há cumplicidade entre todos e o terror - e os terroristas sabem disso", escreve no ensaio, cujo tema volta a ser abordado em Power Inferno (2002). A análise revigora seus críticos. É acusado de ser insensível frente às mortes por aqueles que não lêem suas entrelinhas. Baudrillard diz, à sua maneira, que todo o mundo desejava a agressão ao império norte-americano, que chama de "a utopia moderna realizada" - uma forma de debochar da Modernidade.

Nessa época, o pensador da hiper-realidade, um produto do fracasso das revoluções da Modernidade, caminha para o fim. Em 2005, quase bate seu recorde - sete livros, em 1997 -, publicando cinco novos volumes, entre os quais Cool Memories V, o último de suas memórias filosóficas. Assim, como marginal, encerra sua obra, reafirmando um sentimento que permeia seu pessimismo e sua ironia: não há esperança após o fracasso das revoluções. Para Paul Virilio, filósofo, urbanista e fiel amigo, há apenas a solidão. "E sua obra", diz Virilio, "foi digna de um profundo solitário".

( andrei.netto@zerohora.com.br )
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