Michel Houellebecq, enfim um escritor
01/12/2007
O ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento 2007, promovido pela Copesul Cultural, com apoio da PUCRS, da Uergs, da Ufrgs e da Unisinos, chega ao fim na próxima terça-feira, 4 de dezembro, às 19h30min, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a palestra do escritor francês Michel Houellebecq. Como seu tradutor e amigo, tendo introduzido sua obra no Brasil pela editora Sulina ('Partículas Elementares' e 'Extensão do Domínio da Luta'), já fiz com ele uma dezena de entrevistas para jornais brasileiros. Segue um apanhado desse diálogo contínuo e intercalado pelos anos, por muitas viagens, novos livros e até filmes autorais.
Michel Houellebecq acaba de adaptar para o cinema seu romance 'A Possibilidade de uma Ilha'. Irreverente e desconcertante nas suas posições intelectuais e políticas, ele é um serial killer da cultura espetacular. Os seus principais alvos são o neoliberalismo comportamental dominante, as seitas, a cultura de mídia, a superstição religiosa, o turismo sexual e o imaginário pós-68. Os seus livros parecem unificados por uma visão de mundo e por um estilo radical. Os demais autores, comparados a ele, parecem se ocupar de literatura infanto-juvenil ou de fábulas. Michel Houellebecq recebeu mais de 1 milhão de euros como adiantamento pela publicação do seu livro, já vendeu mais de 2 milhões de exemplares da sua obra e foi processado por ter dito que o 'islamismo é a mais idiota de todas as religiões'.
Em 'A Possibilidade de uma Ilha', o romancista, nascido na ilha de La Réunion, em 1958, conta a trajetória de uma seita que promete a imortalidade, por meio da clonagem, aos seus adeptos. Ridiculariza a busca pela juventude eterna, a liberação sexual, com sua obsessão pelo prazer, a mediocridade cultural e o culto à tecnologia como novo mito.

Tu te consideras o 'papa' de uma 'escola da lucidez'?
Michel Houellebecq — Ninguém pode autoproclamar-se papa ou líder de nada; são sempre os outros que decidem sobre isso. Constato que muitos jovens escritores franceses de hoje se sentem próximos de mim ou, até mesmo, declaram-se influenciados pelo que escrevo. Num certo sentido, isso me constrange um pouco, pois não tenho a mentalidade de um 'líder'. Por outro lado, evidentemente, fico orgulhoso.
'Partículas Elementares' é um livro extraordinário pela sua capacidade de derrubar mitos, especialmente os de maio de 68. Como reages quando te acusam de ser reacionário?
Houellebecq — No plano político, já me situei, explicitamente, várias vezes, na esteira de Auguste Comte. Não o Comte vulgarizado pelo positivismo primário, mas o que sobressai de uma leitura profunda da sua obra. Infelizmente, Auguste Comte está esquecido em seu próprio país e foi, quase sempre, interpretado de forma inadequada. Ele é desconhecido do grande público, muito pouco estudado nas universidades, e os seus principais livros tornaram-se quase impossíveis de encontrar. Não seria exagerado afirmar que sou o único escritor francês que o leu realmente. Em conseqüência, até agora, não fui compreendido. Talvez no Brasil, em função da sua história, a situação seja diferente. O Brasil representa certamente a minha última chance de conseguir explicar as minhas posições filosóficas e políticas.
Em 'Partículas Elementares', há uma sátira impiedosa da sociedade brasileira. Que valor o Brasil tem na sua vida?
Houellebecq — Com razão ou não, os brasileiros parecem aos franceses as criaturas mais eróticas do planeta. O Brasil goza na França de um extraordinário prestígio. Enquanto isso, tudo o que, de resto, adivinha-se ou percebe-se, como a violência, a corrupção e a miséria, por serem desagradáveis, fica encoberto. Mais do que uma sátira do Brasil, a passagem citada cumpre o papel de sátira da condição do macho ocidental, sempre pronto a aceitar seja o que for para atiçar, ligeiramente, a sua fibra erótica descendente.
'Partículas Elementares' representa uma crítica de um tempo decadente em que as pessoas não têm mais identidade clara nem referenciais válidos?
Houellebecq — Com certeza. Sem religião, sem moral, a vida tornou-se impossível, insuportável para o homem. As mulheres, ao menos, até agora, possuem o amor, o que as salva. Mas os homens, no estado atual da nossa civilização, não passam de condenados, de excomungados.
Quem é Michel Houellebecq, um escritor maldito, um escritor que maldiz e amaldiçoa a estupidez crescente ou o único escritor que tem algo a dizer e o faz em uma ficção selvagem, radical e maldita?
Michel Houellebecq – Um pouco de tudo isso, apesar de paradoxal e de curioso. Certamente, um pouco dessas três possibilidades. Não deixa de ser interessante analisar o meu caso. Acredito que alguém um dia sentirá vontade de contar como eu me tornei cada vez mais célebre e, ao mesmo tempo, cada vez mais maldito no meu país. É impressionante e estranho. Outros contarão, mais tarde, essa história, pois ainda é cedo e eu mesmo não tenho certeza de conseguir compreender o que realmente me aconteceu. A única coisa que me aparece com clareza é que as sociedades ocidentais, em particular a França, suportam uma dose de verdade cada vez menor, cada vez mais fraca, cada vez menos intensa.
Tu és o mais importante escritor francês no mundo, ou seja, aquele que é adorado e odiado com a mesma intensidade. A tua missão é anunciar ironicamente as más notícias a pessoas anestesiadas pela estética publicitária e por uma literatura superficial e idiota por escolha mercadológica ou ideológica e que transforma a mediocridade em cânone literário?
Michel Houellebecq — Há alguma coisa inquietante em formação. Algo que tenta se constituir e institucionalizar. Uma mistura de repressão higienizadora, de mediocridade, de bons sentimentos de encomenda, puro clichê, e de irreverência superficial. Tudo isso tendo como fundo uma competição individual cada vez mais exacerbada. Aqueles que se tornam inúteis para os fins propostos e previamente estabelecidos devem ser eliminados. Nisso consiste a chave do sistema em construção. Basta que eu simplesmente descreva nos meus livros esse estado das coisas para ser detestado e atacado. Sejamos claros e realistas, não há mais lugar para a literatura neste mundo em que vivemos. Mas não se pode dizer isso. Pega mal. É um mundo que se pretende o melhor de todos já existentes, o que o obriga a incorporar, nem que seja por vaidade, tudo aquilo que havia de melhor nos mundos e nas épocas anteriores. Em conseqüência, não se pode, oficialmente, eliminar a literatura, o que seria mais simples e prático. Mas é possível engessá-la, obrigando-a a ser responsável, humanista e cidadã.
Como se pode definir, em uma palavra, 'A Possibilidade de uma Ilha'? Uma fábula, como fica sugerido no começo pela citação de um encontro teu com uma jornalista em Berlim? Uma fábula sobre a estupidez da humanidade em busca da imortalidade e condenada à ignorância, à superstição, ao desejo de juventude eterna, de prazeres impossíveis e às ilusões religiosas?
Michel Houellebecq – Sim, poderíamos dizer, sem derrapar, que se trata de uma fábula. Cabe ressalvar que para uma fábula falta carne aos personagens. Tento levar o romance na direção do que costuma ser uma fábula. Dou-lhe um sentido de fábula. Exploro certas características da fábula. Mesmo assim, nunca perco de vista o essencial num romance, ou seja, que os personagens devem sempre, mas sempre mesmo, predominar e conduzir as ações. Fora disso, não há romance. Os personagens devem dominar a cena, impor as suas verdades e as suas trajetórias, mesmo que isso tenha um custo para o autor.
A ironia é a tua arma mais poderosa. Foste processado por teres dito que o islamismo é a religião mais idiota que existe. Outras não merecem o mesmo tratamento?
Michel Houellebecq — Não, certamente não. É preciso saber distinguir o ruim do muito ruim.
O Brasil é considerado país muito religioso, tolerante e aberto ao sincretismo, que mescla cristianismo e cultos afro-brasileiros. Em 'Partículas...', tu alfinetas o Brasil como lugar de turismo sexual. Qual tua opinião sobre a vocação religiosa brasileira?
Michel Houellebecq – Não sei de nada, para dizer a verdade, mas algo me vem agora à mente. Auguste Comte tentou, como eu disse antes, estabelecer uma nova crença, criar a 'religião da humanidade', mas isso fracassou por toda parte no mundo, especialmente na França. Foi um fiasco. Exceto no Brasil. É bastante provável que o Brasil, por razões que eu ignoro e nem tentei entender, tenha sido, ou continue sendo, um país mais favorável que os demais à eclosão de crenças religiosas. Sem dúvida, é uma hipótese a ser explorada.
Tu rompeste publicamente com o Grupo Hachette, controlador da editora Fayard, que publicou 'A Possibilidade de uma Ilha'. A razão seria o fato de que o dono do grupo, Arnaud Lagardère, desistiu de financiar a adaptação do livro para o cinema. Por que era tão importante o filme?
Michel Houellebecq — Vou dizer, em poucas palavras, por que era importante fazer esse filme. Ele era necessário para mim. Existem imagens no livro que só eu conheço, especialmente na terceira parte do meu romance. É isso que explica o sucesso da obra. A poesia triunfa. É uma assunção da poesia. Posso garantir que nada é mais difícil do que fazer a poesia triunfar num romance. Essas imagens precisam ser mostradas. Para dizer a verdade, esse filme será uma maneira de diminuir a minha fama. Num filme, são os atores que contam, não o diretor. Desde o começo da minha vida literária, eu sou obrigado a me justificar sobre o comportamento dos meus personagens, mesmo dos menos importantes, como se fosse de mim que se tratasse. Em caso de filme, acho que os atores me ajudarão a dividir a carga.
O que foi mais difícil no filme?
Michel Houellebecq — Escapar das opiniões e imposições de roteiristas, produtores, distribuidores e demais especialistas do cinema.
Olivier Bardolle, em 'O Caso Houellebecq', afirma que tu és o único autor francês com algo a dizer e o único que merece ser lido depois de Marcel Proust e de Céline. Há na tua obra um conteúdo relevante e polêmico e uma forma radical baseada na ironia e no paradoxo. No entanto, teus críticos falam numa forma plana, rasa, superficial. Qual a tua opinião sobre a crítica e sobre os escritores atuais?
Michel Houellebecq — Não estou de acordo que a minha seja realmente rasa, plana ou superficial. Sei que não é assim. Essa parte da análise sobre os meus livros sempre foi falsa. Na verdade, nunca passou de um trocadilho infame feito a partir do título do meu livro 'Plataforma'. Nada mais.
No Brasil, de maneira geral, acredita-se que a literatura francesa é muito cerebral e que desde o Novo Romance ela se tornou chata, aborrecida, voltada para o umbigo dos escritores e incapaz de contar uma boa história com início, meio e fim. O Novo Romance ficou para trás?
Michel Houellebecq — O Novo Romance foi realmente uma idiotice completa. Eu me situo no outro extremo. Basta dizer que Alain Robbe-Grillet rejeitava Balzac. Pode existir maior absurdo? Alguém que rejeita Balzac não pode ser romancista. É simples assim. Balzac é o pai de todos nós.
Que autores você lê? Chega a ler bestsellers?
Michel Houellebecq — Sim, como todo mundo, chego a ler. Por exemplo, li alguns livros de Agatha Christie, que adorei. Mas nunca li nem Paulo Coelho nem 'O Código Da Vinci'.
Link: www.correiodopovo.com.br

Voltar | Versão em PDF | Indicar

 

Os dados pessoais fornecidos pelos usuários do site www.editorasulina.com.br são assegurados pela seguinte Política de Privacidade