O caso Michel Houellebecq
04/12/2007
O escritor Michel Houellebecq, autor dos romances 'Extensão do Domínio da Luta', 'Partículas Elementares' (ambos publicados pela Sulina com tradução deste humilde colunista), 'Plataforma' e 'A Possibilidade de uma Ilha' (Record), será o palestrante de hoje à noite no encerramento do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Ele provocou uma revolução na literatura contemporânea francesa. Há três maneiras claras de um escritor emplacar: inventar uma nova história (um conteúdo novo), produzir uma nova forma de contar uma história ou mudar o ponto de vista narrativo. O escritor genial inventa uma nova forma para contar uma nova história com um ponto de vista novo. Mas pode ser muito bom criar uma nova forma para narrar uma velha história.
Marcel Proust e James Joyce inventaram novas formas para histórias novas. Proust enfatizou o conteúdo. Joyce apostou na linguagem. Nos últimos tempos, porém, as histórias novas parecem esgotadas. Os escritores retomam temas – o amor, a morte, a guerra, a miséria humana – tentando contá-los de novas maneiras. Até isso, no entanto, está cada vez mais difícil. Resta mudar o ponto de vista. Foi o que fez Leticia Wierzchowski, ao contar a Revolução Farroupilha pelo olhar de sete mulheres, Jonathan Littel, ao descrever o horror nazista do ponto de vista de um oficial alemão encarregado de ajudar a montar execuções, e José Padilha, ao focalizar a violência no Rio de Janeiro, em 'Tropa de Elite', pelo olhar do policial. A arte é um artifício. Tem de mudar.
Michel Houellebecq joga em todas essas frentes ao mesmo tempo. Rompeu com a tradição modernista joyceana seguida pelos discípulos de Guimarães Rosa no Brasil. É impossível alguém não entender os seus livros. A linguagem é clara, direta, simples, sem neologismos nem trocadilhos. O culto do obscuro e do hermetismo que obceca os modernos jamais o atingiu. Mesmo assim, a forma é essencial nos seus textos. Ela se apresenta como ironia cortante, impiedosa e corrosiva. O homem ri de tudo. Nada escapa do seu humor maldito. É derrisão pura e dura. Houellebecq é um sujeito estranho, que fala pouco, mas provoca muito e não poupa mitologias baratas. O ridículo do mundo pós-maio de 1968, com o culto desenfreado ao corpo, balzaquianas tentando manter corpinhos de adolescentes e regressões supersticiosas de todos os quilates, é o principal alvo do seu humor implacável.
Poucas vezes um escritor se torna um 'caso'. Salvo de polícia. Ou psiquiátrico. Michel Houellebecq transformou-se num caso literário mundial: vende muito, gera discussão, amores e ódios e até processos. No século XIX, Flaubert e Baudelaire foram processados no mesmo ano pelos escândalos literários que provocaram. Michel Houellebecq foi convocado aos tribunais por fazer uma crítica da religião. Todos os seus livros estão impregnados por essa revolta face ao 'sagrado'. Mas nada é gratuito. Ele conta histórias novas, com formas novas e olhares novos. A sua prosa é altamente enganadora. Parece simples. Não é. É a segunda vez que Houellebecq vem ao Brasil. Na primeira, esteve em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Bebeu muito, falou pouco e acho que não comeu ninguém. Ainda não era tão famoso. Mas deixou saudades e fãs. Agora, ele promete mostrar como a cultura norte-americana domina o planeta. É mole?
(Juremir Machado da Silva para o Correio do Povo - Porto Alegre - RS)
Link: www.correiodopovo.com.br

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