Dantec, o inimigo público
17/11/2009
Maurice Dantec, autor de "Raízes do Mal" (Sulina), que traduzi e acaba de ser publicado no Brasil, é um polemista nato. Os seus inimigos dizem que ele é de extrema direita. Ele se diz católico, monarquista, sionista e inimigo do obscurantismo islâmico. É a favor da pena de morte e apoiou as aventuras de Bush no Iraque. "Raízes do Mal" já vendeu mais de meio milhão de exemplares na Europa. Segundo a revista francesa L''Express, trata-se de uma "obra-prima" por descrever "o homem em todo o seu esplendor e em todo o seu horror". O crítico Richard Pinhas afirmou que "Raízes do Mal" é o melhor romance de todos os tempos sobre a paranoia.

Romance policial e de ficção científica, "Raízes do Mal" conta a história de um grupo de serial killers que atua e mata através de uma rede de computadores. Matar para eles é um jogo. Um game. Melhor romance da era da cibercultura, "Raízes do Mal" esbanja lirismo, violência e cultura científica transformada em texto inteligível e irônico. Os investigadores são especialistas em ciências cognitivas, uma linda russa, um velho professor francês e um jovem pesquisador que só pensa em levar a russa para a cama nem que para isso tenha de agarrar a unha os serial killers que tanto fascinam a moça. Maurice Dantec vive isolado no Canadá. Louis-Ferdinand Céline, o melhor escritor francês do século XX, depois de Marcel Proust, era um médico racista, simpatizante do nazismo e repugnante. Um sujeito escroto em tempo integral. A obra dele é genial e revolucionária. Salvo seus panfletos racistas, que continuam proibidos na França. Ganhei um de aniversário. É insuportável e nojento. Dá para vomitar.

A ficção de Céline, no entanto, sempre foi maravilhosa. Acima de qualquer ideologia. Dantec não é racista. É exótico, excêntrico, misógino. As ideias dele não me convencem. A sua ficção me deslumbra. O jornal francês Libération, de centro esquerda, teceu elogios ditirâmbicos a "Raízes do Mal", um livro capaz de misturar teoria do caos, hackers, psiquiatria, fanatismo religioso, desespero, solidão, vazio existencial e amor. Há quem sustente que "Raízes do Mal" é tão inovador que teria criado um novo gênero literário. JeaBaudrillard, o gênio dos paradoxos, considerava "Raízes do Mal" uma das mais inteligentes expressões da estupidez humana. A literatura de Maurice Dantec tem cheiro de sangue e de fezes. Mas as suas frases podem ser sublimes. Dantec é um anarquista. É isso que lhe permite desvendar o mundo contemporâneo com uma fúria paradoxalmente serena e devastadora. Se Dantec não tem a ironia de Michel Houellebecq, enfia o dedo até o fundo da ferida. Tchum!

Pode-se ver a literatura de Dantec no cinema em "Missão Babilônia". A revista Lire garante que poucos sabem tão bem quanto ele misturar ação, multiplicar histórias e aliar poesia, realismo, futurismo e fantástico. Chega de literatura morna. Basta de asneiras sobre a literatura francesa. O escritor norte-americano NormaSpinrad dá o tom: "Dantec is a pure-hard-core revolutionary, armed with impressive eruditioand intelligence, who remembers to fuck around. His novels are both political and metaphysical, with a strong knowledge of what happening ithe world". Entenderam?


(Coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo / Porto Alegre / RS)
Link: www.correiodopovo.com.br

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