Literatura na veia
09/12/2009
Quando eu me apaixono por um livro em língua francesa, trato de traduzi-lo para o português. É a minha forma de compartilhar com os brasileiros a paixão por um texto. Não ganho dinheiro com traduções. Sou um traficante de palavras e de línguas. Traduzi Raízes do Mal, de Maurice Dantec (publicado no Brasil pela Sulina) por ver nesse livro a perfeição na mescla de romance politicial com ficção científica. Neste Natal, darei exemplares de Raizes do Mal para todas as pessoas inteligentes que devo presentear. É brutal, esplêndido, cruel, lírico, terrível, enfim, como deve ser uma história de serial-killers. Não estou fazendo propaganda barata ou tentando vender alguns exemplares. Estou dizendo o que realmente penso sobre o livro que, somente por amor, consumiu cinco meses da minha vida em trabalho exaustivo. Fiquei obcedado. Aqui vai um fragmento chocante. É literatura na veia. Não tenham medo, arrisque (tem na Livraria Cultura). É pau puro. Em 2009, fui feliz e produtivo. Traduzi uma obra-prima. Ganhei o ano. Foi meu prêmio.
*
Com uma facilidade desconcertante eu imaginava os Seres das Trevas acompanhando os toneis que submergiam com suas vítimas aterrorizadas, observando os esforços frenéticos que elas faziam para abrir o metal com as próprias unhas. Eles devem ter inicialmente mergulhado com câmeras submarinas. Depois, tiveram certamente a ideia de instalá-las dentro dos toneis.
Um esforço, eu pensava, um esforço.
Alguma coisa que viesse romper a mecânica da rotina, a armadilha do tédio.
Sim, pois mesmo o assassino em série acaba, cedo ou tarde, por se deixar capturar por uma das forças essenciais da mente, nosso caro amigo “robô da consciência”.
O “robô da consciência” é uma máquina de aprender e esquecer. É ele que toma conta, aos poucos, dos atos e gestos que compõem o nosso cotidiano, até que isso se torne um reflexo, sem que a “consciência” tenha, ao que parece, de desempenhar qualquer papel.
Claro que isso é um modo de ver da mente. Uma ilusão criada pelo cérebro para se livrar das ações “animais” e permitir ao córtex se concentrar naquilo para o que foi feito. Essa ilusão é vital, mas é uma ilusão.
Ora, esse maravilhoso dispositivo, esse programa “neuro-lógico” carrega uma armadilha fatal. Como quase tudo o que compõe o humano. Essa armadilha tem sido claramente evidenciada ao longo do tempo pelas velhas religiões da humanidade. Ela se chama facilidade.
A facilidade produz, ao mesmo tempo, dependência e tédio. É uma espécie de buraco negro que pode, se não prestarmos atenção, engolir inexoravelmente a consciência.
Ora, ao final de alguns anos de atividade intensa, até mesmo o assassinato em série pode se revelar profundamente tedioso. E o assassinato em série, digam o que quiserem, é o lazer absoluto, a satisfação imediata e repetitiva dos desejos mais elementares, sexo-destruição.
Ele próprio é a armadilha fatal. A partir daí, a goela escancarada do robô da consciência se abre e engole toda a energia mental liberada para atingir certo “grau de sensação”. A busca está fadada ao fracasso, pior, ao absurdo. O esforço deve ser ampliado de maneira exponencial, mas o robô da consciência não para de engolir tudo e de avançar de modo equivalente.
Inúmeros vampiros-canibais, por exemplo, acabaram por devorar partes dos seus corpos ou por beber o próprio sangue, pois o potencial de sensações experimentado com a carne das vítimas já estava esgotado.
Acabei por me perguntar aonde iriam parar.
Em que momento o esforço feito chegaria ao ponto de ruptura?
Não havia resposta.
A noite estava escura como tinta preta. Nenhuma estrela no firmamento.
O dia seguinte seria cinza.
Subi para me deitar.




Postado por Juremir Machado da Silva - 08/12/2009 10:03

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