Presentes de Natal
12/12/2009
Chegou a hora de comprar presentes de Natal. Eu, nesta fase de sinceridade absoluta, já sei o que vou dar para todas as pessoas inteligentes. Livros. Meus livros. Isso mesmo. Não adianta me chamar de cínico ou de marqueteiro. Sou franco. Em primeiríssimo lugar, eu daria "Raízes de Mal", romance policial de Maurice Dantec traduzido por mim, para todo mundo. É uma obra-prima. Só não saem páginas e páginas na Veja e em todos os jornais brasileiros sobre esse livro estupendo, que fez muito sucesso na Europa, por ter o meu nome na capa. Cheguei a pensar em assinar com um pseudônimo. Por exemplo, J. Machado. Eu já disse tantas verdades sobre o jornalismo (in)cultural brasileiro que todos me odeiam. Estou isolado. E feliz. Adoro ser um serial-killer solitário.

Para todos os amigos, amigas e familiares com mais de 40 anos, eu daria sem hesitar meu livro "Para Homens na Crise dos 40 e Para Mulheres Interessadas em Compreendê-los". É bom e barato. Custa só R$ 12,00 e pode ser comprado aqui no Correio do Povo. Às minhas amadas leitoras mais experientes, cujo carinho me conserva na ativa, eu daria meu livro "Aprender a (Vi)ver". É meu livro mais positivo, mais apaixonado pela vida, mais encantado com o mundo, mais autêntico. Muita gente torce o nariz para esse livro por puro mau humor. Colaram-me um rótulo. Só esperam de mim ironia e cinismo. Eu não me entrego. Sou múltiplo. Todos os dias, no espelho, eu vejo outros. Eu sou muitos. Outro dia, ao me olhar no espelho, vi a Fernanda Young. Ela botava a língua para mim. Uau!

Agora, para os mais amados e adorados, eu daria todos os livros anteriores e mais "Solo". Confesso que quando olho o meu romance "Solo" em cima da mesa, fico emocionado e chego a me dizer: "Saiu de mim. Essa obra-prima saiu de mim". Aí eu escuto Beethoven e me sinto bem acompanhado. Se eu tivesse de ir para uma ilha sozinho, levaria "Solo" comigo. Desconheço livro mais cínico, mais irônico, mais radical e mais cruelmente engraçado. Por fim, para quem gosta de romance de não ficção, eu daria meu livro "Getúlio". Como é que "Getúlio" não recebeu todos os prêmios literários brasileiros? A resposta é simples: tem o meu nome na capa. Eu devia ter assinado J. Silva. Dou o serviço completo: todos os meus livros podem ser encontrados na Livraria Cultura. Corram para lá.

Depois de comprarem os meus livros, não se constranjam: comprem também para presentes livros de Michel Houelebecq, traduzidos ou não por mim, de Mario Vargas Llosa (ele é quase tão bom quanto eu), dos argentinos Jorge Luís Borges e Robert Arlt e, se quiserem o melhor francês de todos os tempos, apostem em Marcel Proust. Se desejarem uma boa história brasileira, resgatem o Mário Palmério de "Chapadão do Bugre". É menos pseudofilosófico do que Guimarães Rosa e mais autêntico. Se preferirem um gaúcho, escolham logo o mais desmitificador de todos eles: Ciro Martins. Um jovem brasileiro radical? Marcelo Mirisola. Se não quiserem dar meus livros para os amigos, deem para os inimigos. Nada de Paulo Coelho, Chico Buarque ou Veríssimo. Se for para escolher livros desses caras, deem meias e canetas.
(Coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo / Porto Alegre / RS)
Link: www.correiodopovo.com.br

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