Entrevista com Dantec
11/01/2010
O escritor francês Maurice Dantec, autor do romance policial de ficção científica "Raízes do Mal", vive no Canadá. Fiz uma entrevista com ele por e-mail. É sempre muito interessante passar da obra ao autor. O resultado, neste caso, é uma metralhadora impiedosa que nada poupa. Dantec não mede palavras. Ele as usa para atacar. Show.

- Por que morar no Canadá depois de ter, junto com Michel Houellebecq, sacudido a literatura francesa? É a sina do "escritor maldito", que desde Rimbaud precisa partir?

Dantec - Eu não me considero um escritor maldito. Sou um privilegiado. Saí da França porque esse país não me interessava mais e marchava direto contra o muro. Eu sabia que o meu destino estava em outro lugar. Nunca me senti completamente francês. Deve ter contado para isso as origens célticas da minha mãe e a influência russa e americana na minha infância. Viver no Canadá não significa estar "isolado. Basta viver um mês em Paris e outro em Montreal para compreender bem a diferença.

- Escritor célebre e marginal ao mesmo tempo, os seus livros vendem como pão quente e são adaptados para o cinema. "Raízes do Mal" revela um quadro sombrio do mundo contemporâneo. É o romance de um escritor engajado decidido a denunciar as misérias do mundo?

Dantec - Como pão quente! Não tão depressa. Não sou Marc Lévy nem Michel Houellebecq, Frédéric Beigbeder ou Bernard Werber. Vendo como uma boa e velha fábrica de armas. Meus modelos mais antigos continuam tendo mercado no mundo num bom ritmo. Os novos não viram best-sellers imediatamente, mas seguem nessa direção ao longo do tempo. Certo, dois livros meus foram adaptados para o cinema, mas visto o que o cinema francês fez deles, teria sido melhor deixar para lá. Eu sou "célebre", quer dizer, sou conhecido por certo número de pessoas, entre as quais os meus leitores. E os meus inimigos. Marginal? É um rótulo reivindicado por todo mundo atualmente. A margem tornou-se o centro. Quem não é rebelde hoje? Quem não é "radical"? Quem não usa uma camiseta com a estampa de Che Guevara ou com um Free Tibet ao mesmo tempo em que lê o seu jornal "alternativo" na sua sala com móveis Ikéa? Não acredito em escritores "engajados". Não sou Simone Sartre nem Jean-Paul de Beauvoir. As "misérias" do mundo me interessam muito pouco em si mesmas. E ainda menos as pretensas "soluções" que nos são propostas para eliminá-las. A guerra, a violência, o ódio e o crime são constantes na humanidade desde o pecado original. Isso tudo é o pano de fundo "natural" dos meus livros.

- Autodenominado escritor francês de alma americana, em que a literatura francesa o desagrada?

Dantec - Eu disse, na verdade, que sou "um escritor norte-americano de língua francesa". Mas a sua redefinição não me desagrada. Isso nada tem a ver com a literatura francesa, de resto, que eu admiro até certa época, ou seja, enquanto ela existiu. Uma literatura não ressurge das cinzas por magia. Aliás, uma literatura não pode emergir de um país que apagou a sua própria história.

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