Entrevista com Dantec (II)
11/01/2010
- Escritor polêmico, associado, às vezes, à direita ou mesmo à extrema-direita, seu livro "Raízes do Mal" não revela, porém, qualquer postura ideológica afirmada.

Maurice Dantec - Na França, se você defende o povo judeu, você é chamado de nazista. Se defende a singularidade da civilização europeia, é rotulado de eurocêntrico. Se defende o cristianismo, é chamado de fascista. Se defende os Estados Unidos, é chamado de imperialista. Em contrapartida, você tem todo o direito, até mesmo a "legitimidade", de ser antissemita, defensor do islamismo, comunista, trotskista, anarquista, ecolomístico ou de ser adepto de qualquer uma dessas maravilhosas ideologias que nos prometem um mundo melhor. Não separo ficção e ideias. Nada tenho a separar. A literatura é a única politika digna desse nome.

- O fato de ser um grande leitor de Gilles Deleuze, o que transparece nos seus livros, especialmente em "Raízes do Mal", não o caracteriza como um escritor bem francês?

Dantec - Gilles Deleuze é um filósofo. A sua única "nacionalidade" (natio, família em latim) é o pensamento.

- Diz-se que a literatura francesa morreu ou que é muito chata e sem ação. "Raízes do Mal" é um livro repleto de ação. A verdadeira literatura agora é a policial?

Dantec - Não. É a minha (risos).

- Ser a favor da pena de morte, da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos e contra o islamismo radical o caracteriza como um reacionário ou como um democrata?

Dantec - Defendo a pena de morte para os serial-killers, os assassinos de crianças, os que atiram contra a massa (como os bandidos mexicanos de Ciudad Juarez), os terroristas, os autores de genocídios, os criminosos de guerra e os que cometem crimes contra a humanidade. Fui claro? Não existe islamismo "radical". Existe o islamismo e ponto. (Re)leia o Corão e verá. Está tudo lá com todas as letras. O islamismo é, ao mesmo tempo, o neototalitarismo sintético do século XXI e a origem arqueo-histórica de todos os totalitarismos. A democracia é a ditadura das massas. A "reação" é por definição um movimento "reativo". Ora, até mesmo os mortos podem ter esse tipo de reflexo. Eu sou um católico futurista.

- Conhece escritores brasileiros?

- Dantec - Conheço mal a literatura brasileira. No universo latino-americano, conheço melhor os escritores argentinos, chilenos ou mexicanos. Paradoxalmente por ser uma "terra incógnita" literária, o Brasil continua no meu imaginário graças a filmes como "Aguirre" e algumas histórias em quadrinhos da minha infância. Ô Cangaceiros!

- A literatura está mesmo em crise? Seus livros são muito lidos apesar de serem uns verdadeiros "tijolos".

Dantec - A crise faz parte da essência da literatura. Para ser realmente lido, o que vem a ser a única coisa importante para um escritor, é preciso roubar o banco, ou seja, tomar de assalto o cérebro dos leitores.

- Por que escrever? Por dinheiro ou para matar o tempo?

Dantec - Todo romance é uma forma de vida que exige vir à luz, ser posta no mundo. Em contrário, ela pode nos matar. É o mais implacável de todos os pactos.
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