Bom de polêmica
05/04/2010
Traduzi recentemente um pequeno livro do sociólogo francês Dominique Wolton. Chama-se "Informar Não È Comunicar" (Sulina). É pau puro. Um chute no balde atrás do outro. Às vezes, com elegância. Outras, sem a menor cerimônia. Quando acha necessário, ele bate no fígado dos adversários e sai assobiando. Wolton adora andar na contramão. Para começo de conversa, diz que precisamos mais de comunicação do que de informação atualmente. Considera idiotas todos os que acreditam numa democracia virtual simplesmente pela força das virtudes das novas tecnologias. Desanca os entusiastas desmesurados da Internet. Bate também naqueles que veem a televisão aberta como um instrumento de manipulação de telespectadores indefesos. Ninguém escapa das bordoadas.

Aqui vai uma mostra: "O mais importante na vida privada ou pública passa cada vez menos pela Internet. Ontem, receber e-mails era um privilégio, quase um símbolo de poder. Hoje, é um fardo. Todo mundo passa o tempo enviando e-mails e perde um tempo louco baixando-os, fazendo a triagem e respondendo. A informação acessível tornou-se uma tirania. Para trabalhar seriamente, é preciso se desligar dessa facilidade tecnológica. O sonho, às vezes, vira pesadelo, ainda mais que, como todos sabem, as informações mais importantes do poder jamais são difundidas pela Internet, mas pelo telefone ou de viva voz". Não sei se ele está certo. Sei que é uma provocação e tanto. Questiona a essência da utopia tecnológica em vigor. Defende a primazia do presencial.

A tecnologia, segundo Wolton, cumpre um papel relevante na comunicação. Possibilita a distribuição rápida de dados. O decisivo, no entanto, no entender dele, é outra coisa: "Quanto mais a tecnologia racionaliza e reúne voz, imagem, texto e som, mais as diferenças de ordem cultural dizem respeito à natureza da atividade, ou seja, ao que é mais importante. Esse será o combate do depois de amanhã. Hoje, a batalha técnica fascina com sua multiplicidade de aplicações. Amanhã, a disputa será pela diversificação dos conteúdos". Wolton não acredita que tudo possa ser gratuito na Internet. Produzir informação custa dinheiro. Alguém tem de pagar a conta. Também não crê que todos possam ser jornalistas graças ao Twitter e aos blogs. A população sempre precisa de bons mediadores especializados e críticos.

Wolton é favorável ao controle da Internet: "Por enquanto, o faroeste seduz mais do que a ideia de regulamentação política, que acabará por se impor como aconteceu em relação à imprensa, ao rádio e à televisão. Quando os escândalos se tornarem fortes demais, a Internet não poderá continuar fora da lei e deverá sair da ideologia da desregulamentação, esse clone da ideológica tecnicista. Curiosamente, mesmo com a crise atual do capitalismo financeiro, ainda não se fala da indispensável necessidade de regulamentar a Internet. A 'traçabilidade' generalizada, encoberta pela sensação de liberdade e de poder total, pode abalar os fundamentos das liberdades privadas e públicas conquistadas com dificuldade em três séculos de batalhas políticas".
Link: http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=115&Numero=187&Caderno=0&Editoria=120&Noticia=121097

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