Sociedade da frustração
29/09/2010
Tenho enfatizado aqui uma banalidade: pensamento não tem nacionalidade. Os brasileiros Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda foram grandes. O alemão Max Weber é fascinante. O físico austríaco naturalizado americano Paul Feyerabend é para mim o maior epistemólogo do século XX. Gilles Lipovetsky, que esteve segunda em Caxias, recebido por Rocco Donadio e seus amigos, é francês. Mas isso não tem a menor importância. Não existe uma escola francesa de pensamento. Não existem escolas nacionais de pensamento. Em cada país, existem milhões de perspectivas que se complementam ou chocam. Como colocar no mesmo saco Noam Chomsky e Paul Wolfowitz? Salvo nos países onde deve predominar o pensamento único.

Lipovetsky falou na terça pela manhã na Faculdade de Comunicação da PUCRS. Ele é autor de best-sellers como "O Império do Efêmero", "A Era do Vazio", "O Crepúsculo do Dever" e "O Luxo Eterno". Entre seus ótimos livros estão também "Metamorfoses da Cultura Liberal" e "A Sociedade da Decepção". Ele fala da vida, do cotidiano, das nossas contradições, de ética, de moral, de conflitos, de desejo e dos nossos dilemas numa sociedade que parece ser regida por única lei: querer ser feliz a todo custo sem correr riscos. Em "Metamorfoses da Cultura Liberal", ele resume a situação: "A obsessão de si, hoje, manifesta-se menos pela febre de prazer e de gozo que pelo medo da doença e da idade, a medicalização da vida".

Queremos tudo, desde que com a garantia de nada perder: "Narciso está menos apaixonado por si mesmo que aterrorizado pela vida cotidiana; seu corpo e o ambiente social parecendo-lhe mais agressivos. O neoindividualismo não se reduz ao hedonismo e ao psicologismo, mas implica, cada vez mais, um trabalho de construção de si, de tomada de posse do seu corpo e da sua vida". Louvamos o risco, que tememos acima de tudo. Desejamos emoções fortes. Se algo, porém, der errado, exigimos reparação estatal. Nada deve barrar nossos desejos. Tudo deve nos garantir que não seremos destruídos por eles. Sonhamos com o risco total. Risco zero. Aventura radical com seguro de vida e proteção social. Se der errado, deve haver um culpado externo.

A pós-modernidade já ficou para trás. Gilles Lipovestky saltou para a hipermodernidade: aceleração total. Sem pessimismo total. Individualismo responsável: "Já dei alguns exemplos: a tolerância, a ecologia, o respeito pelas crianças, a exigência de limites, o voluntariado, a luta contra a corrupção, as comissões de ética. Por toda parte, o individualismo, na cultura pós-sacrificial, desenvolve-se tomando duas formas radicalmente opostas: por um lado, aumento da busca dos limites legítimos a fixar à liberdade de cada um; por outro lado, aumento do esquecimento ou da negação do direito dos outros. As sociedades pós-moralistas produzem mais individualismo responsável, mas também mais individualismo irresponsável, mais autonomia razoável, mas também mais autonomia descontrolada e sem regras".

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
Link: http://correiodopovo.com.br

Voltar | Versão em PDF | Indicar

 

Os dados pessoais fornecidos pelos usuários do site www.editorasulina.com.br são assegurados pela seguinte Política de Privacidade